O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Um mito de criação feminino

O mito da criação que está entranhado no mundo ocidental é o de Deus Pai criando do nada o universo todo, descansando no sétimo dia, Adão e Eva, a maçã, a expulsão do Paraíso e por aí vai… Está tão imerso na nossa cultura, que acabamos achando que ele é O mito de criação e não UM mito de criação. Hoje trago outro mito, de origem indígena brasileira, da etnia dessana, que está junto com outros 19 mitos femininos no meu livro O LEGADO DAS DEUSAS. Vejam que nele não é Deus Pai que cria o mundo do nada: é uma Avó, Yebá Beló. É um mito poético e surreal, como os bons mitos – que são metáforas – devem ser!
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No princípio de tudo o mundo não existia, só havia as trevas. De repente, de si mesma, brotou uma mulher. Ela se fez a partir de seis coisas invisíveis: bancos de madeira, suportes de panela, cuias, cuias de ipadu (folhas de coca), pés de maniva (mandioca) e cigarros. Aconteceram coisas muito mágicas para que ela pudesse criar a si mesma, mas essas não se sabe, são puro mistério! Ela se chamou de A Não Criada, ou de Yebá Beló, a avó do universo.
Ela já brotou de dentro de sua morada de cristal de quartzo branco e de lá começou a matutar como deveria ser o futuro do mundo. Enquanto isso, mascava ervas mágicas e fumava seu cigarro. Foi então que seu pensamento começou a tomar a forma de uma esfera e essa esfera começou a elevar-se até atingir o alto de uma torre (que também era fruto do seu pensamento). Ao subir, a esfera incorporou dentro dela toda a escuridão. Só na morada de quartzo de Yebá Beló, que parecia uma grande maloca, havia luz. E ela chamou sua morada de Sua Barriga, o Universo. Ela era guardada por um morcego de asas enormes que vivia no alto da torre.
Yebá Beló quis então povoar sua casa. Mascou mais ervas e fumou mais do seu tabaco invisível. Tirou as ervas da boca e com elas e mais a sua saliva criou os Homens da Pedra Branca, que chamou de os cinco Seres Trovão. Eles eram imortais. Ela assim os saudou: “Olá, irmãos”, e eles responderam: “Olá, Avó do Universo e de tudo que existe”! Eles habitaram compartimentos de sua grande casa: o primeiro trovão ficou no sul, o segundo no leste, o terceiro no alto, o quarto no oeste e o quinto no norte. Yebá Beló pediu aos cinco que criassem tudo o mais. Mas os trovões só fizeram os rios, não conseguiram fazer a luz nem a Terra.
Assim, Yebá Beló resolveu fazer outro ser. Mascou ipadu, fumou cigarro e criou um ser de fumaça, Yebá Ngoamãn, seu bisneto. Ela lhe deu um bastão-chocalho com sementes masculinas e femininas e o elevou até a torre do grande morcego. Na torre, o bastão assumiu um rosto humano, que virou o Sol. Yebá Beló soltou o Sol para iluminar o mundo. Depois tirou do seio esquerdo sementes de tabaco e as espalhou sobre esteiras para formar a terra. Tirou leite do seio direito e espalhou em cima, para adubá-la.
Em seguida, enviou seu bisneto Yebá Ngoamãn para a casa do terceiro trovão. Lá chegando, ao abrir a porta, apareceu Ëmëko mahsãn Boléka, o chefe dos dessanas, que se tornou um irmão dele. O terceiro trovão sentou com eles, estendeu a esteira, apertou a barriga e de sua boca saltaram diversas riquezas. Eram enfeites. Cada par de enfeites representava um homem e uma mulher. O trovão ensinou o rito para transformá-los em seres humanos. No mesmo instante as riquezas se transformaram em gente; deram uma
volta na casa e voltaram a se transformar em riquezas, que futuramente viriam a constituir a humanidade. As primeiras mulheres que nasceram tinham um delicioso cheiro de abacaxi.
Assim, de Yebá Beló, a mulher que brotou de si mesma, criou-se o Mundo!

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