O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Um labirinto: Ariadne, o Minotauro, as mulheres de Atenas e nós mesmas

É uma sensação  angustiante ficar perdida num labirinto. Eu fiquei assim num jardim inglês, como vc pode ver pelas fotos que tiramos lá… E claro que há muitos mitos narrando essa experiencia concreta e também metafórica. O mais famoso é o mito grego de Ariadne, Teseu e o Minotauro, do qual fiz um resumo:

“Minos, rei de Creta, prendeu o Minotauro, que era um monstro metade homem metade touro, dentro de um Labirinto. O Labirinto era um local com tal emaranhado de quartos, salas e corredores, que ninguém lá entrando conseguiria encontrar o caminho de volta.

E de nove em nove anos sete rapazes e sete moças eram lançados no Labirinto para servirem de comida ao Minotauro, que só se alimentava com carne humana.

Então, o jovem Teseu, filho do rei de Atenas, foi para Creta com as outras treze vítimas para tentar matar o monstro. Lá Ariadne, a filha de Minos, se apaixonou por ele e lhe deu um fio condutor para que, após a vitória sobre o monstro, pudesse sair da formidável teia de caminhos tortuosos do Labirinto.

Depois de matar o monstro e sair do labirinto, Teseu fugiu com seus companheiros, cumprindo a promessa de levar consigo Ariadne em seu navio. Porém quando o navio fez escala na ilha de Naxos, Teseu abandonou Ariadne adormecida na praia, por amor a outra mulher. Ela ficou em prantos ao ver o navio ao longe.

Algum tempo depois, chegou na ilha o deus Dioniso que, fascinado pela beleza de Ariadne, desposou-a e levou-a consigo para o Olimpo. Como presente de núpcias deu-lhe um diadema de ouro, e quando o casal chegou à mansão dos imortais o diadema foi transformado em constelação.

Porém a realidade dos fatos é outra. Ariadne é uma antiga Deusa da vegetação, que foi suplantada, em Naxos e demais ilhas do Mediterrâneo, por Dioniso. O hieròs gámos (casamento) do deus com a filha de Minos, isto é, a união de duas divindades protetoras da vegetação, pertence a um velho fundo de costumes religiosos, além de possibilitar que uma antiga deusa “decaída”, suplantada em suas funções e transformada em princesa, tivesse direito à apoteose.”*

O que tem isso a ver com as mulheres de Atenas e com nós mesmas?

Veja só: uma mulher deu a solução do emaranhado labirinto: o fio, que é a presença e consciência do caminho percorrido e a ligação entre as coisas. Um homem entrou lá e matou a fera com força e coragem. Os dois entraram no labirinto juntos – Ariadne simbolizada pelo fio – mas só Teseu saiu vitorioso da história. Pelo contrário, a pobre Ariadne foi abandonada logo em seguida.

No centro de muitos labirintos desenhados nos pisos da Idade Antiga e da Idade Media, inclusive dentro de Igrejas, está a imagem de Teseu matando o Minotauro. Cadê Ariadne? Igualmente, na mitologia e na vida cívica grega, apesar das fortes deusas, a mulher foi relegada a segundo plano social onde só valia o intelecto linear e a força do masculino.

Mais ainda, o mesmo mito conta no final como a Grande Deusa da Vegetação foi suplantada por Dionísio, com o premio de consolação de virar sua esposa…. Embora recebendo um diadema de constelações por isso. Conhece esse filme?

Enfim, isso nos leva a pensar que a sabedoria intuitiva e a consciência ampliada do feminino consegue achar o caminho num labirinto intrincado, mas nem sempre fica com a gloria. Pelo contrario, pode ser abandonada ou relegada, mulher ou deusa que seja.

Porém o mito diz que só os dois juntos, o feminino e o masculino, tiveram força e sabedoria para entrar no labirinto, matar o monstro que se escondia lá dentro e sair.

Quem sabe hoje, com essa consciência, possamos sair do labirinto e recomeçar outra vida melhor, mais justa e plena para todos, independente de sexo, gênero, qualidades. Sair para criar uma nova Era de verdade, longe dos mortíferos emaranhados de jogos de poder e disputas.

Isso e muito mais foi trabalhado no 6 Encontro de Mitologias do Feminino.

* resumo baseado no livro Mitologia Grega vol 1, de Junito de Souza Brandão

 

 

 

 

 

 

 

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