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Como sobreviver a uma mãe negativa? Por Clarissa Pinkola

 Para essa experiencia negativa na vida, uma linda lição da natureza no Mulheres que correm com os lobos 

Mas o que dizer da mulher que realmente passou por uma experiência com uma mãe destrutiva na própria infância? É claro que esse período não pode ser apagado, mas ele pode ser atenuado. Ele pode não ser suavizado, mas pode agora ser reconstruído com firmeza e da forma correta.

Não é a reconstrução da mãe interna que é tão assustadora para tantas mulheres, mas, sim, o medo de que algo de essencial tenha morrido naquele período, algo que nunca mais possa ser ressuscitado, algo que não recebeu alimento e proteção, pois em termos psíquicos era a nossa própria mãe que morreu. Para vocês, eu digo, tranqüilizem-se, vocês não estão mortas, vocês não sofreram danos letais.

Como na natureza, a alma e o espírito têm recursos espantosos. À semelhança dos lobos e de outras criaturas, a alma e o espírito conseguem sobreviver com muito pouco e, às vezes, passam muito tempo sem nenhum alimento. Para mim, esse é o milagre dos milagres.

Uma vez eu estava transplantando uma cerca-viva de lilases. Um enorme arbusto havia morrido de causa desconhecida, mas os restantes estavam cobertos de roxo na primavera. O pé morto rachou e se esfarelou como pé-de-moleque quando o desenterrei. Descobri que suas raízes estavam ligadas a todos os outros lilases vivos na cerca.

O que me espantou ainda mais foi o fato de a planta morta ser a “mãe”. Eram dela as raízes mais grossas e mais velhas. Todos os seus filhotões estavam muito bem embora ela própria estivesse botas arriba, como que de canelas esticadas. Os lilases se reproduzem por meio do que se chama de sistema de rebentões, de modo que cada pé provém de um rebento da raiz da planta mãe. Com esse sistema, mesmo que a mãe fraqueje, o rebento pode sobreviver.

É esse o modelo psíquico e a esperança para aquelas que tiveram pouco ou nenhum cuidado materno, bem como para as que sofreram cuidados torturantes. Muito embora a mãe de certo modo esteja acabada, muito embora ela não tenha mais nada a oferecer, os rebentos irão sei desenvolver, crescer independentes, e ainda vicejar”.

Clarissa Pinkola Estés

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