O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Será que é bom ser “deusa” e “musa”?

Inúmeros rituais dos primeiros agricultores eram feitos para honrar e conseguir bênçãos da Grande Mãe,  mas a  maioria eram iniciações apenas masculinas. E nessas iniciações eram sacrificados exclusivamente animais machos, pois a fêmea de toda espécie é a que “morre mas ressurge”, como representante dessa  força cósmica identificada com a natureza, a Grande Mãe.

Ficamos nos perguntando:  o que acontecia então com as mulheres de carne e osso? Onde estão seus rituais? Não há muitos registros disso. Parece que a identificação da mulher com a temida Deusa e com a natureza a “tirava” do humano; nessas sociedades os homens é que eram os seres humanos que agiam e eram iniciados.

Porém, mesmo que fossem vistas como representantes da Deusa, isso não significava que as mulheres eram bem tratadas! Como diz Joseph Campbell: “Os três crimes mais graves na Índia são matar uma vaca, matar um brâmane e matar uma mulher, porque todos eles representam os poderes do sagrado. É evidente que, quando se vai à Índia, fica claro que é possível ser muito, muito sagrado e ainda assim estar numa condição social bastante rebaixada. Mas estas são incongruências da vida – um mistério” (Deusas, o mistério do divino feminino, pg 48).

Será que isso é tão misterioso assim? Também a perseguição às bruxas e a intensificação da repressão e submissão feminina aconteceram na época em que o culto à Virgem Maria estava no auge! Talvez quanto maior o endeusamento de uma imagem ou abstração feminina, maior o medo dela e mais forte a repressão ao próprio medo e a quem “representa” aquele medo.

Mas vamos lá, mais simples: quando se é “deusa” não se pode ao mesmo tempo ser mulher, humana, mortal, igual, companheira…  Quando se é “musa” está-se a serviço de um outro, não de si mesma. Nessa situação a mulher não se inicia, não cria, não fala por sí – é apenas inspiração para outro. Ela é uma abstração, uma linda ou sagrada imagem, mas não uma pessoa. Evidentemente essa é uma história contada pelo masculino, que nos dá a visão patriarcal do feminino.

Será que ainda hoje pensamos  que somos um pouco musas, deusas, iniciadas naturalmente pela natureza, as melhores fontes de inspiração? Isso é bom ou isso nos des-individualiza como seres humanos? Finalmente falamos com nossa própria voz ou ficamos repetindo o ponto de vista do patriarcado? 

Pensar assim não é deixar de  ter devoção nas deusas,  de pedir que elas nos inspirem com suas qualidades e graças, ou de trabalhar com suas imagens arquetípicas.  Nos confundir com elas é que é outra historia, perigosa e (ainda!) mal contada. 

Esse foi um dos temas do 4 Encontro de Mitologias do Feminino e gerou uma roda de conversa preciosa!

 

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