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O que a Bela (da Fera), Psiquê e a Mulher-Bufala têm em comum? Tema do II Encontro de Mitologias do Feminino

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O que tem em comum essas três figuras femininas mitológicas:  Bela, Psiquê e a Mulher-Bufala? Se quiser descobrir sozinha, pule o próximo paragrafo e leia mais abaixo os resumos do início do conto de fadas A Bela e a Fera, o inicio do mito de Eros e Psiquê e a ancestral lenda da Mulher Bufala dos índios americanos Pés Pretos.

Descobriu? Resposta: focando na função social do mito (existem outras funções) e em apenas um aspecto das três histórias (existem vários outros), o ponto em comum é que as três começam com uma mocinha se sacrificando para resolver ou conciliar um problema de seu grupo social. Especificamente, as três mocinhas sacrificam a escolha de seu parceiro amoroso e aceitam se casar com alguém feio, monstruoso, perigoso, com um animal ou com um ser que não pode ver.

Exemplo de mito usado numa função social: o conto de fadas A Bela e a Fera tem origem em antigas narrativas orais, em outras histórias e no próprio mito de Psiquê. Porém sua versão mais conhecia é a escrita por Mme de Beaumont, que visava incentivar mocinhas a serem bem educadas, boazinhas e eventualmente aceitarem casamentos de conveniência com homens não muito atraentes ou mais velhos (as Feras), porém bem situados financeiramente e aptos a ajudar suas familias*… De novo, repito que o conto tem outras leituras (simbólicas, psicológicas, místicas), o que não invalida essa.

Isso tudo, muito mais, e ainda o que tem a ver com nossas vidas de mulheres contemporâneas foi conversado e ampliado na nossa roda. O III Encontro será dia 19/11, as 15 hs, na mesma Livraria Millenium.

BELA E FERA (Mme de Beaumont, França, 1756)

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Era uma vez uma mocinha muito linda, a mais nova das 3 filhas de um mercador viuvo. As irmãs dela gostavam de luxo, de festas e lindos vestidos, mas ela era simples, meiga e boa.

Porém, de repente seu pai perdeu toda fortuna. Ela aceitou a situação com dignidade, mas as duas irmãs não se conformavam e descontavam suas frustrações sobre ela, que não reclamava e ajudava o pai como podia.

Um dia seu pai recebeu notícias de bons negócios em outra cidade e resolveu ir até lá. Antes de partir, o pai chamou as três filhas e lhes perguntou o que queriam de presente. Uma pediu roupas, a outra joias, mas Bela só pediu uma rosa.

Quando o pai voltou, estava desesperado. Contou que tinha se abrigado de uma tempestade num castelo que parecia vazio, mas era mágico. Tudo o que precisou lhe foi servido como por encanto. Ao partir pela manhã avistou um jardim de rosas e lembrando do seu pedido colheu uma delas para levar consigo. Foi surpreendido, porém, pelo dono, uma Fera pavorosa coberto de pelos que lhe impôs uma condição para viver: deveria trazer uma de suas filhas para se oferecer em seu lugar. Ele chorou, chorou, mas a Fera não mudou de ideia.

As duas irmãs disseram que a mocinha tinha criado problema com mais um de seus estranhos pedidos. E Bela não hesitou. Afinal, o que tinha acontecido era culpa sua. Além disso era seu dever ir no lugar do pai, a quem amava tanto. Ela comunicou sua decisão e eles foram ao castelo.

Ali encontraram a Fera, um ser enorme, peludo, horrível e assustador que perguntou se ela vinha por vontade própria. Como ela disse que sim, ele mandou que o pai fosse embora. Ela abraçou o pesaroso pai e acompanhou-o até a porta sem deixa-lo perceber como estava apavorada, imaginando o que Fera iria fazer com ela.

Porém, ao invés de devora-la ou maltrata-la, a Fera foi aos poucos se mostrando como um ser sensível e amável, apesar de muito feio e pouco inteligente. Ele fazia todas as suas vontades, tratava-a como uma princesa, e o castelo era maravilhosamente luxuoso e belo.

EROS E PSIQUÊ (Apuleio, Atenas, 125-180DC)

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Era uma vez uma mocinha muito linda, a mais novas das 3 filhas de um rei. As irmãs se casaram, mas apesar de atrair  muitos admiradores, essa não se casava. Então, seu pai foi consultar o oráculo de Delfos para saber por que suas outras filhas haviam encontrado maridos e ela não.  

O oraculo anunciou que essa mocinha nunca poderia se casar, pois foi destinada a unir-se a um ente monstruoso, podendo até ser um dragão ou uma serpente. E que, vestindo trajes nupciais, ela deveria ser deixada no alto de um solitário rochedo onde o monstro a pegaria.

Não era possível contrariar e nem sequer contestar o oraculo, que transmitia a vontade de Apolo.  O povo que não obedecesse aos deuses seria castigado. Assim, apesar de pesaroso, o pai levou a moça até o alto de um rochedo e ali a abandonou.

Psiquê ficou lá, apavorada, esperando a morte certa. Mas estava conformada com seu destino, pois aquilo era seu dever e nada poderia fazer.  Exausta, abandonou-se a um sono profundo.

Quando despertou estava num jardim em frente a um magnífico palácio. Tomando coragem, ela entrou no esplendoroso salão do palácio, onde todos os seus desejos foram atendidos por ajudantes invisíveis. À noite ela foi conduzida a um quarto escuro onde encontraria seu terrível esposo. Quando sentiu que alguém entrava no quarto, ela tremeu de medo mas logo uma voz acalmou-a e ela logo sentiu os carinhos de alguém. E tiveram uma noite de amor.

Quando ela acordou, já havia amanhecido e o misterioso amante havia desaparecido. Isso se repetiu por várias noites sem que ela jamais visse seu rosto.

 

MOÇA BUFALA (índios Pés Pretos, EUA) **

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Era uma vez uma mocinha muito linda, que estava preocupada com a situação de seu povo. Para conseguir carne para o rigoroso inverno eles costumavam estourar uma manada de búfalos e faze-los cair do alto de um rochedo. Lá embaixo, eles cortavam a carne e a armazenavam. Só que agora seu povo não estava conseguindo fazer isso, porque não conseguiam fazer os búfalos cair do penhasco; os animais se aproximavam e se desviavam. Se não conseguissem a carne a tribo iria morrer de fome.

Certa manhã a mocinha foi buscar água no poço e avistou um grande grupo de búfalos. Ela então disse:

– “Se vocês caíssem no penhasco eu me casaria com um de vocês”.

E para sua surpresa eles despencaram mesmo. Só que então um dos búfalos velhos, o feiticeiro do rebanho, disse:

– “Tudo bem, agora você vem comigo”.

Ela disse:

– “Ah, não!”

– “Sim, você prometeu. Nós cumprimos a nossa parte, minha família está morta lá embaixo. Agora você vem comigo”.

De manhã, a família dela acordou e não viu a jovem. Pelas pegadas, seu pai percebeu que ela fugiu com um búfalo. Ele decidiu ir busca-la e depois de caminhar bastante resolveu descansar um pouco num charco. Avistou então um pássaro e perguntou se ele viu sua filha. O pássaro respondeu que viu uma mocinha com um grupo de búfalos perto dali. O pai então pediu ao pássaro que fosse até ela e a avisasse que ele estava ali espernative-american-art-medicine-wheel-painting-18x24-acrylic-on-canvas-southwest-decor-native-americ-tamara-dalrympleando por ela.

O pássaro aproveitou quando os búfalos estavam dormindo, foi lá e disse para a mocinha:

– “Seu pai está lá no Charco esperando por você”. Ela respondeu:

– “Isso é muito perigoso! Esses búfalos podem nos matar. Mas diga a ele que me espere, vou dar um jeito”.

 Então seu marido búfalo acordou, tirou um dos chifres e lhe disse:

– “Vá até o Charco buscar água para mim”.

Ela pegou o chifre, foi até o Charco e lá estava seu pai que lhe disse:

– “Venha”.

Ela disse:

– “Não, é muito perigoso. O rebanho inteiro vai nos perseguir. Mas eu acharei um jeito; agora me deixe voltar”.  

Apanhou água e voltou. Quando chegou, seu marido búfalo disse:

– “Sinto um cheiro de índio!”.

Ele chamou os outros búfalos, que se levantaram e fizeram uma dança lenta, foram até o Charco e pisotearam o pobre homem até ele ficar em pedacinhos. A garota chorou e seu marido búfalo disse:mulher-bufala

– “Por que você está chorando?”.

– “Esse é o meu pai”, ela disse.

– “Ah é?” ele respondeu. “E nós? Ali estão nossos filhos, mulheres, pais; todos mortos. E você aqui chorando pelo seu pai”!

Mas ele ficou com pena dela e disse:

– “Se você conseguir trouxer seu pai de volta à vida, eu a deixarei ir embora”.

A mocinha então falou para o pássaro:

– “Procure pelo chão e veja se encontra um pedacinho do meu pai”.

E o pássaro acabou trazendo um ossinho dele. A garota colocou o osso no chão, colocou um cobertor por cima e cantou uma canção mágica de grande poder. E apareceu um homem debaixo do cobertor. Ela continuou cantando; o homem ficou de pé e os búfalos ficaram espantadíssimos.

Então os búfalos falaram para ela:

– “Por que você não faz isso por nós? Nós ensinaremos nossa dança e depois que vocês matarem nossas famílias, vocês dançam e cantam essa canção e nós voltaremos à vida”.

Assim foi feito e assim continua sendo feito para sempre!

 

* Era uma vez… as metamorfoses nos contos de fadas contemporâneos, Ana Claudia Nascimento Theodoro, Dissertação de mestrado

**Joseph Campbell, Mitologia Primitiva, Ed. Palas Athena

 

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