O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O Feminino e os Livros: AS LETRAS DO MEU NOME

AS LETRAS DO MEU NOME, da escritora e jornalista italina Grazia Livi, publicado no Brasil pela Editora Rocco, em 1996, na coleção Gênero Plural, é um livro bem diferente, bem original. É uma mistura de biografia, romance e ensaio, que segue dois fios condutores: a vida de alguma mulheres excepcionais, especialmente escritoras e as transformações da condição feminina durante o século XX. 
A autora conta partes da vida dessas mulheres escolhidas e reproduz, a partir de escritos delas, de biografias, artigos de jornais, entrevistas e de sua própria imaginação, seus diálogos internos e intercala tudo isso com trechos de poemas de Sylvia Plath, Elisabeth Bishop, Adrienne Rich, Marguerite Yourcenar, etc. 

Começa com Simone de Beauvoir, com o título INÍCIO, 1947, quando Simone buscava sobre o que pesquisar e escrever e acaba focando na condição feminina e que culmina com a escrita do, talvez mais importante livro sobre o assunto, O SEGUNDO SEXO. 

Depois, na parte RECUO NO TEMPO, 1900, vai contar partes da vida das escritoras Colette, Virgínia Woolf, Gianna Manzini (escritora italina não traduzida no Brasil) e Gertrud Stein e de suas relações com a arte da escrita e com a especificidade de ser mulher escritora. Nessa mesma parte conta ainda a história de Anne Frank no esconderijo em que viveu durante o nazismo e sua relação com a escrita de seu famoso diário. 

Volta a Simone de Beauvoir em LUTA, 1949, com a repercursão do livro O SEGUNDO SEXO e a radicalização de Simone, que vai contar de si de uma forma muito corajosa, inaugurando uma autobiografia feminina bem diferente, em MEMÓRIAS DE UMA MOÇA BEM COMPORTADA. 

Vem o EXÍLIO,1958, que começa com uma fictícia mulher tomando consciência, a partir da leitura desses dois livros de Simone de Beuavoir, da armadilha em que caiu ao se definir pelas regras do patriarcado e da necessidade de sair dela. Depois vem Anna Banti (outra escritora italiana sem tradução no Brasil), bem mais velha que a autora e uma espécie de sua mentora e fala um pouco de seus encontros com ela. Conversam, entre outras coisas, sobre as mulheres buscarem sua própria voz na literatura. 

Segue DESPERTAR, 1968, quando grupos de mulheres do mundo todo começam a se encontrar para trocarem experiências sobre o ser mulher, falarem sobre si e de qual seria a nossa identidade, sem a definição do patriarcado: é o início da segunda onda do feminismo (a primeira foi das sufragistas no final do século XIX). E mais um encontro com Anna Banti, que não comunga com essas novas reindivicações feministas. 

 Após, vem PRAÇA, 1970, com as feministas tomando as ruas, depois de perceberem que “o privado é político”. E mais diálogos com Anna Banti sobre a literatura, a escrita, as mulheres. 

Em DESTINO, 1972, a autora, pela primeira vez se colocando como personagem, vai falar de seus embates com a escrita e os últimos momentos de Anna Banti. 

Em DILACERAÇÕES, 1973, vai falar de Ingeborg Bachann, nascida na Austria em 1926, e que se tornou uma poeta (especialmente), escritora e dramaturga muito premiada e prestigiada ( também não traduzida no Brasil). Foi uma mulher que amou muito alguns homens, de uma sensibilidade estremada, aliada a um intelecto privilegiado. A autora vai entrevistá-la em 1973, pouco antes dela morrer num incêndio no seu quarto de hotel e como diz: “Ingeborg tinha um quê de trágico”. E a partir desse encontro a autora desiste do jornalismo para se dedicar a literatura exclusivamente. 

 Logo a seguida vem um capítulo bem curto, IMPEDIMENTOS,1977, quando o movimento feminista e suas conquistas já estão avançados e três mulheres anônimas, nuam viagem de trem onde estava a autora que as ouve, discutem como colocar as conquistas públicas na vida privada e como não cair nas armadilhas do retrocesso. 

 Segue PREÇO, 1980 (o que mais gostei) sobre a vida da feminista italiana Carla Lonzi e sobre sua busca radical sobre o que é ser mulher. 

E o penúltimo capítulo e mais surpreendente pela escolha da mulher, DESAFIO,1988, não é sobre uma escritora ou uma feminista, mas é sobre Agnes Bojaxhiu, a Madre Teresa de Calcutá. Cita nesse capítulo Simone Weill, Clarice Lispector, Santa Teresa d’Ávila e trechos de cartas que Madre Teresa escrevia a noite e que lia pela manhã para as freiras de sua congregação, sobre qual devia ser a missão e o comportamento delas. Esse capítulo termina com uma frase de Luce Irigaray, filósofa e feminista belga: “O elo que une, reune, masculino e feminino, deve ser horizontal e vertical, terrestre e celeste”. Lindo, não? 

E termina com EXPECTATIVA, 1990, com um pequeno poema e a seguinte frase de Carla Lonzi : “O futuro imprevisto do mundo está em recomeçar o caminho e percorrê-lo com a mulher como sujeito.” 

Pelo meu relato você pode pensar que o livro tem um viés político ligado ao feminismo; tem, mas é MUITO mais que isso. É muito mais sobre literatura e a busca da Voz das mulheres nela e na vida. 
E, apesar de ser formado por inúmeros capítulos, o livro não é imenso, tem 319 páginas, os capítulos são curtos: são como que pinceladas, como olhares meio poéticos, meio psicológicos, meio filosóficos, meio históricos sobre as mulheres. E no seu final, a autora coloca todas as fonte de onde tirou suas histórias.

Não é um livro fácil, porque é denso e bastante focado no mundo interno e nas dúvidas filosóficas, artísticas e existenciais das mulheres protagonistas dele e todas elas são mulheres profundas e “vastas”. Ao mesmo tempo para quem ama o tema de mulheres e literatura, mulheres e a busca da sua expressão própria e particular da e na vida e do e no mundo, é um livro precioso!

 

 

Texto de Cristina Balieiro

2 comentários

  1. Gostei da dica Cris. Valeu! Bjão.

  2. Acho que vc vai gostar, Paty!
    Bj
    Cris

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