O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O direito ao próprio corpo

Uma moça me fez algumas perguntas para seu TCC cujo tema é sobre a relação da sociedade com o feminino, com meninos que não atendem aos padrões comportamentais tidos enquanto masculinos, o que leva à culpabilização de meninas em casos de abusos e estupros, e como seria a possível trabalhar essas questões a fim de proteger crianças e mulheres num futuro. Coloco aqui a resposta que mandei a ela:

Quando se fala sobre “a relação da sociedade com o feminino” pode-se ler “a relação da sociedade patriarcal com o feminino”, pois é ainda neste tipo de sociedade que estamos há 3000 anos, de um jeito ou outro. E, tanto em relação as crianças como as mulheres, as questões que você está colocando estão relacionadas a um ponto: o direito ao próprio corpo.

Em seu livro Feminismo em comum, Marcia Tiburi diz que “não há nada mais absurdo para o patriarcado do que o direito ao corpo”.  Nem crianças nem mulheres têm pleno direito ao próprio corpo; e no limite, segundo as regras que o favorecem, o corpo do dominado pertence ao dominador – o que alcança questões de sexualidade, de exploração de trabalho e muito mais.

Entre outras coisas, a culpabilização da vítima pelo abuso e a própria justificativa do abuso são maneiras de o patriarcado lidar com o medo do poder do desejo e do próprio feminino. Esses medos têm origem muito, muito antiga. Acabamos de fazer algumas palestras sobre isso, que colo trechos:

“Nas idades mais remotas da história e pré-historia as mulheres eram consideradas como dotadas de enorme força mágica pois ainda não se conhecia a relação entre o ato sexual, a gravidez e o parto. Surgiram cedo os mitos do perigo que são as mulheres, que não se resumiam a essa habilidade de parir. (livro Máscaras de Deus – Mitologia primitiva, Joseph Campbell)

Depois que essa primeira condição foi superada, desde o inicio do patriarcado tornou-se importante assegurar que o filho nascido de uma mulher era do seu amo e senhor. A angústia do adultério que torna a esposa suspeita soma-se aquele medo ancestral da magia da mulher, vindo lá dos primeiros tempos… Na França, todo tipo de condenação pelo adultério feminino só foi abolido em 1974”.

Enfim, o medo do desejo da mulher, do próprio desejo, da traição, a própria culpa e a manutenção dos privilégios fazem com que a repressão feminina seja condição do patriarcado desde sempre.

As inseguranças sobre a “masculinidade” são partes das causas da repressão a homossexualidade e aos meninos que não reproduzem os “padrões ideais”. E o direito a reprimir e a não posse do próprio corpo pelas mulheres e crianças podem levar ao inconsciente “direito” – que justifica o desejo – de abusar.

Um dos problemas decorrentes do abuso é que os abusados podem tornar-se abusadores. A violência é uma linguagem, que é aprendida e infelizmente pode ser replicada. Isso torna ainda mais importante que vítimas de abuso sejam ouvidas, respeitadas, tenham um lugar de acolhimento.

As crianças têm que ser protegidas antes de tudo, e infelizmente não são o suficiente aqui no Brasil.  Aliás, em termos de abuso infantil sugiro também olhar para questões da erotização infantil e para a infantilização da sociedade em que vivemos.

Solução? Vamos prestar atenção às ideias que querem nos levar a um mundo melhor, acreditar que isso é possível, apoiar quem apoia isso e não dar ouvidos nem replicar os agressivos defensores de uma sociedade que permite a violência e fecha os olhos a crianças e mulheres que sofrem e mantem as posturas conservadoras e justificativas para abusos.

Acredito que seja a cada dia, no passo a passo, que as coisas mudam: no respeito em cada relação pessoal e ação cotidiana, nas iniciativas miúdas ou maiores, particulares ou públicas, assim como na participação nas manifestações coletivas, nas escolhas políticas e na decisão de manter a esperança.

A ampliação de consciência não é uma modinha, feminista ou o que seja. É uma intenção e um passo para todas e todos, pois os homens de bem são nossos companheiros também, e assunto vital para a geração das criancinhas que vão fazer o futuro.

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