O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Na velha casa azul de madeira, por Patricia Preiss

Texto de  PATRÍCIA PREISS

Recebemos esse email da Patricia Preiss e gostamos tanto do texto dela que pedimos para postá-lo aqui no Blog.

Cristina querida!!
Vendo tua postagem sobre contarmos nossas histórias, me deu vontade de te enviar um pequeno relato que fiz há uns anos atrás sobre a minha infância. Sou graduada em Artes Visuais e meu projeto de graduação foi com trabalhos de serigrafia que eu imprimia com pigmentos que tivessem cheiro, café, páprica, mel, era uma brincadeira entre o decorativo, acumulo de materiais, etc. E como uma continuação da pesquisa; como estas questões olfativas tocavam as pessoas, fiz este texto e enviei para ter delas um retorno. Não posso compartilha-los pois são cartas confidenciais das pessoas mas compartilho o meu, que é pautado pela minha linhagem feminina: bisavó , avós, tias , mãe e vizinhas.

Na casa velha azul de madeira, lembro de rodear minha bisavó enquanto ela fazia puxa-puxas e merengues. A mesinha que ela arrumava pra mim e servia com seus bules alouçados o chá de folha de bergamota ou cidró; os biscoitos com geléia de goiaba ou figo feitos por ela.
O cheiro das flores no pessegueiro e dos figos maduros no pátio, uma casa mágica (pra uma criança) com sótão e porão.
Da vizinha, Dona Frida, vinham diversos aromas, a casa parecia uma ilha no meio de tanto verde. Rosas, cravos, bocas-de–leão, limoeiros, parreiras, as ameixeiras nas quais subíamos e cada um tinha o seu galho.
Lembro do quarto da vó com cheiro forte da madeira dos móveis antigos, o perfume “Madeiras do Oriente” e a Água de Colônia do meu avô no toucador. Ia dormir com ela e sentia o cheiro da pasta de dente após ela escová-los. O máximo pra mim era quando ela resolvia fazer uvada e suco de uva, fora os figos cristalizados que às vezes ela guardava em cima do armário e eu roubava.
Quando viajava pra Porto Alegre, ia visitar minha outra avó; no apartamento dela sempre tinha um aroma de perfume. Sem contar o cheiro das cocadas (que eu amava) e o pudim de leite condensado. Íamos ao parque e a noite eu dormia de mãos dadas com ela ouvindo estórias e aprendendo a rezar Santo Anjo.
Na casa da minha Tia Avó: o violino do Vô Luis, o piano da Laís; gatos, cachorros, galinhas e muitos pombos. Árvores frutíferas e uma pequena horta. As famosas bacias de pipoca que minhas primas faziam e eu ia dormir com elas lendo Gibi da Mônica. De manhã, gostava de tomar café com pão e tomate. Lá também ouvia Secos e Molhados.
Não posso esquecer da minha Avó Torta, desta eu tenho vários lugares pra me lembrar. A casa em Canela, com o fogão a lenha, os pinhões, o chocolate, as grifas de pinheiro pra acender o fogo. A Malharia com suas lãs e linhas coloridas, o cheiro das roupas. As Amoreiras com o açude os pinheiros (altos que não tinham fim) e a grande varanda da casa. E finalmente a Casa da Praia; Arroio Teixeira, a família toda reunida. O cheiro da maresia, a ansiedade de chegar logo no mar, passando a casa das conchas. O prédio da frente que a cada ano mudava de cor. Depois do banho gostava de me secar com a toalha com cheiro de sol, ainda quente do varal. À noite; pastéis de siri, camarão, queijo, coca-cola e batata-frita ouvindo o Menegueti tocar e cantar: “- Meu coração….. não sei por quê….”
Dona Adelina, Dona Zulema, Dona Lola, Dona Lady, Dona Frida, Dona Juracy, Dona Isaura, Dona Marianinha, Dona Eulina, Dona Aracy, Dona Balbina, Dona Alba, Dona Julieta, Dona Terezinha, Dona Romilda e Dona Rosa.
As DONAS da minha infância.
Estes são alguns cheiros, cores, sabores, sons, sensações e amores impressos na minha memória.
Quais são os da sua?

A foto postada é de um trabalho da Patrícia de serigrafia, com impressão de açucar sobre entretela.
Saiba mais sobre Patricia : http://centroderoda.blogspot.com/

1 comentário

  1. Mit Mujalli disse:

    Grato Cris, precioso!
    Patricia escutei o cheiro daqui das Gerais,valeu!
    Parabens pelo trabalho lindo…

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