O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Joseph Campbell fala sobre a dependência materna e fracasso matrimonial


Nesse trechinho do livro O herói de mil faces*, Campbell analisa o depoimento de um rapaz (aqui está apenas o final) explicando como algumas condições particulares da espécie humana podem gerar distorções, mantendo o homem (e também a mulher, claro) muito tempo preso ao universo infantil, sem desgrudar da mamãe...  

“Sou o filho mais velho e tenho vinte e três anos de idade. Estou separado de minha mulher há um ano; por alguma razão, não nos demos bem. Amo profundamente meus pais e jamais tive problemas com papai, embora ele tenha insistido em que eu voltasse a viver com minha mulher, mesmo que eu não pudesse ser feliz com ela. E jamais o serei.”

“O marido fracassado revela, aqui, com uma inocência verdadeiramente prodigiosa, que,em lugar de dirigir suas energias espirituais para o amor e para os problemas do casamento, permanecia, nos recessos secretos de sua imaginação , na situação dramática, nos dias de hoje ridiculamente anacrônica, do seu primeiro e único envolvimento emocional, a situação do triângulo tragicômico da infância: o filho contra o pai pelo amor da mãe.

Ao que parece, as mais permanentes disposições da psique humana são aquelas geradas pelo fato de permanecermos, no âmbito do reino animal, a espécie que fica mais tempo junto ao seio materno. Os seres humanos nascem cedo demais; quando o fazem, estão inacabados e ainda não estão preparados para o mundo. Em conseqüência, toda a defesa que têm contra um universo de perigos é a mãe, sob cuja proteção ocorre um prolongamento do período intra-uterino. Daí decorre o fato de a criança dependente e sua mãe formarem, ao longo de meses após a catástrofe do nascimento, uma unidade dual, não apenas do ponto de vista físico, como também no plano psicológico . Toda ausência prolongada da mãe provoca tensão na criança e conseqüentes impulsos agressivos; da mesma maneira, quando se vê obrigada a controlar a criança, a mãe desperta nela respostas agressivas.

Portanto, o primeiro objeto da hostilidade da criança é idêntico ao primeiro objeto do seu amor; seu primeiro ideal (que daí por diante se mantém como base inconsciente de todas as imagens de bênção, verdade, beleza e perfeição) é a unidade dual entre a Madona e o Bambino.”

*Ed. Cultrix-Pensamento

 

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