O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Filme: A Árvore da Vida


Por que coisas más acontecem para pessoas boas?
Como dá para acreditar num Deus invisível e injusto?
Ainda se acreditarmos, como podemos nos relacionar com sua imensidão?

Um arquiteto bem sucedido (Sean Penn) ainda não respondeu a essas perguntas que em algum momento todos nos fazemos, ou seguimos fazendo ao longo da vida.
Ele volta a seu passado, na transição de criança para adolescente, quando percebeu que tinha dentro de si o Bem e o Mal, a possibilidade da Graça e a força da Natureza.
Para o menino, esses pares de opostos são personificados por sua boa mãe (Jessica Chastain), e pelo despótico pai (Brad Pitt), que ele odeia.
A morte de seu irmão, logo no inicio do filme, faz com que a mãe se pergunte como o Grande Pai Deus deixa isso acontecer com seu filho, inocente como o Jó da Bíblia.

A árvore, símbolo da vida e que nos trouxe o fruto do bem e do mal (para alguns a própria consciência humana), vai crescendo e estendendo seus ramos enquanto o garoto passa por sua iniciação naquele subúrbio americano dos anos 60.

O filme mostra cenas especulares da natureza, do macro e do microcosmos , como se refletindo como fica nossa escala humana nisso…
E vai relacionando as imagens de forma poética e bela, como a da mãe estendendo roupas no varal sob um vento leve, e o movimento sub aquático de algas marinhas.

Segundo o também filosófico diretor de cinema Andrei Tarkovski, é justamente isso que um artista faz: mostra ao mundo novas maneiras (metafóricas, estéticas, simbólicas) de ligar as coisas. Aqui com algo de Kurosawa e de Kubrick em seu 2001- UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO.

Cenas com cortes rápidos, poucas falas, ritmo por vezes lento, trilha sonora forte, belíssimas imagens e pegada filosófica dão o tom dessa obra original, ganhadora da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes deste ano.

O diretor é Terrence Malick (Terra de Ninguém, Dias de Paraíso, Além da Linha Vermelha, O Novo Mundo) um recluso que não dá entrevistas, não permite que o fotografem em publico e não explica sua obra.
Não acho que dá para explicar muito, mesmo; talvez seja melhor nos deixarmos ser levados pelas imagens e ver o que isso provoca em nós… Obviamente traz mais uma pergunta do que uma resposta, embora o final seja otimista.

Enfim, pode não ser um filme fácil, mas para mim é uma obra prima.
Fica girando na cabeça da gente como um pequeno planeta gira em torno da Luz no espaço sideral.

Texto de Beatriz Del Picchia

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