O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Complicado ter um relacionamento amoroso, complicado não ter.

Direto o trecho escrito por Connie Zweig, comentário depois.

Os relacionamentos são o mito de nossos tempos. A busca pela relação ideal adquiriu proporções legendárias, como a busca do Santo Graal. Reverenciamos os relacionamentos como nossos ancestrais reverenciavam os deuses.

Se não temos um relacionamento principal, vivemos assombrados pela dúvida a nosso próprio respeito, questionando se somos ou não capazes de intimidade e de compromisso, questionando até o valor da vida sem isto.

Ansiamos por um parceiro que ofereça um oásis acolhedor em um mundo quente e árido; um companheiro que nos convide para um refúgio de aceitação e compreensão.

Sonhamos com a doçura do amor, e falamos constantemente aos amigos sobre a urgência desta busca: como achar este relacionamento, como mudar a nós mesmos para podermos atrair a pessoa certa, como manter esta pessoa interessada em nós, como fazer durar por muito tempo.

Se temos um relacionamento, talvez sejamos afortunados o bastante para termos momentos de felicidade, em profunda ressonância com outra alma humana.

Mas também podemos ansiar por mais intimidade, mais profundidade; ou, inversamente, podemos desejar mais independência, mais tempo sozinhos.

Porque estar em uma relação estável é ter de lidar com a tensão dos opostos: o desejo secreto de ser englobado e o terror oculto de ser aprisionado; a fantasia de ser salvo e a dívida perene para com o salvador; a vibração de uma parceria criativa e a monotonia de uma rotina sem sentido. 

Paradoxalmente, apesar de o relacionamento ser o nosso grande mito, não temos um mito do relacionamento. Isto é, os antigos mitos sobre parceria romântica refletem padrões arcaicos da consciência humana, que não combinam com o nosso atual desenvolvimento político, psicológico e espiritual.

Só explicando, para junguianos é o mito que está por trás das nossas ações que dá força, existência, sentido e direção a elas. Se não há um mito por trás do relacionamento, ele não existirá ou não durará. Mas qual seria ele? Bom, a autora ilustra esse texto com uma poesia maravilhosa. Fica a dica.

Um homem e uma mulher se sentam próximos e neste momento eles não desejam ser mais jovens ou mais velhos, nem ter nascido em outro país, época ou lugar.

Estão contentes de estarem onde estão conversando ou ficando em silêncio.

Suas respirações juntas alimentam alguém que não conhecemos.

O homem observa a forma como seus dedos se movem; ele vê as mãos dela segurarem o livro que ela lhe passa.

Eles obedecem a um terceiro corpo que têm em comum.

Fizeram a promessa de amar este corpo.

A idade pode chegar, a separação pode vir, a morte virá.

Um homem e uma mulher se sentam próximos; quando respiram, alimentam alguém que não conhecemos, alguém de quem ouvimos falar, mas que nunca vimos.

Robert Bly

 Fonte:  O jogo das sombras, de Connie Zweig

1 comentário

  1. Ana disse:

    LINDO Bia! Grata, amei.

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