O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

A menina que já veio pronta: Solange Buonocore

Fiz esses contos com intenção de “traduzir” para a linguagem mitológica alguns aspectos da vida real da mulher entrevistada no nosso livro O feminino e o sagrado: mulheres na jornada do herói.
Então, para esclarecer os que ainda não leram o livro e relembrar a quem leu, antes do conto há um pouco da biografia da pessoa a quem se refere.




Solange é uma mulher falante, ágil, alegre e carismática, que passa uma enorme força.
Na entrevista (que durou quase quatro horas, e teríamos assunto para muito mais), feita em sua Casa dos Orixás, em Guarulhos, ela nos contou fatos pessoais misturados com mitos e teorias do candomblé, coisas que parecem estar, de fato, completamente integradas em todos os aspectos de sua vida.
Solteira, sem filhos, desde os 16 anos sua vida foi devotada ao candomblé. Sua história mostra que seu destino – o odu – já estava traçado desde o nascimento, e ela o aceitou sem reservas, tornando-se uma dedicada mãe de santo, uma Zeladora de Orixás.


Em sua casa, uma mulher se preparava para dar a luz.
Preparou e preparou, esperando um bebê normal. Só que, na hora do nascimento, da barriga dela saltou um ser prontinho – homem? Mulher?

Não dava para saber, porque no começo era só uma coisa pequenina e rápida.
Antes que o pessoal entendesse o que estava acontecendo, ela imediatamente virou um Exu.
Correu para o quintal, onde tinha três frangos pretos – e zapt! – mordeu os bichos no pescoço.
Foi aquela sangaiada. Foi aquele espanto sem igual.

Só quando ela desvirou é que eles viram que era uma menininha, e bem bonitinha.
De cara, o pai percebeu:
– Eu não vou dar conta dessa aí.
A mãe falou:
– Ela vai cumprir o destino dela.

Não deu outra. E não tem muita história, também: essa menina já veio pronta, que nem o Mozart, que desde criança já compunha as peças complicadas que nasceu sabendo.
Nascida, criada e vivida no Santo, a menina vem vindo, direta como uma fecha, sem desviar do caminho que Olorum traçou para ela.
Hoje, ainda pequenina e rápida, ela também é a forte e querida Mãe de todos que a procuram.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *