O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

SOBRE A DIFÍCIL ARTE DE TERMINAR

Outro dia, na palestra que fizemos na Livraria Arjuna, um amigo que foi nos ouvir, me perguntou: “Quando você soube que tinha terminado o livro? Quando e como você soube que tinha colocado o ponto final”?
Eu nunca tinha pensado sobre isso, mas sabia a resposta!
Claro que eu e a Bia escrevemos juntas o livro e juntas de tal forma, que não conseguimos distinguir o que foi escrito por uma ou por outra.
Mas eu me lembro muito bem de quando o PONTO FINAL aconteceu para mim.

Foi na semana de carnaval de 2009. Fiquei em São Paulo e ninguém que conhecia tinha ficado, então passei praticamente sozinha aqueles dias.
Eu fiquei mexendo a semana toda com a parte do livro que me cabia finalizar. Acordava e ficava no computador até a noite, parando só para comer ou esticar as pernas e as idéias.
Quando acabou a semana, eu enviei o texto para a Bia e disse que para mim tinha acabado! Que eu não conseguia fazer nada melhor e sequer conseguia saber o que pensar sobre ele.Ela me respondeu dizendo que tinha achado legal e esse texto, junto com a parte que ela tinha finalizado, acabou sendo a versão final do nosso livro.
Posteriormente a Edith Elek, que foi quem primeiro leu o livro e quem decidiu editá-lo, nos fez sugestões para ajustes e nós mudamos e o texto ficou melhor. Mas, já era uma terceira pessoa e uma profissional do ramo.

Estou contando isso porque a pergunta desse amigo me fez pensar muito sobre a dificílima tarefa de terminar algo que criamos e que para nós é muito importante.
Acho que por um fim àquilo em que investimos tanto tempo, trabalho, dedicação, o nosso coração e nossa alma é uma tarefa árdua por diferentes e complexos motivos.

Em primeiro lugar temos que enfrentar nossa pretensão de sermos, nada mais, nada menos, que perfeitos!
Render-se ao fato de que só podemos fazer o que nos é possível é abrir mão da arrogância e aceitar tanto nossos alcances quanto nossos limites.
E também, é muito difícil distinguir se já fizemos tudo o que podíamos ou se ainda podemos consertar ou aprimorar o que estamos fazendo.
Tem que haver uma dose de humildade e uma dose de sabedoria.

Em segundo lugar terminar algo que preencheu nossa mente, nossa energia e nossa atenção por bastante tempo, dá a sensação de cair em um vazio!
Parece que o término do nosso investimento naquele “algo” abre um buraco na nossa vida e não sabemos como preenchê-lo.
É preciso exercer o desapego.

Além disso, o que também torna essa tarefa muito difícil, é que ao terminar algo, “ele” nasce, não é mais um projeto e temos que lançá-lo no mundo, exposto a críticas e julgamentos, o que dá muito medo!
Precisa de coragem, fé no que se fez e um certo bom humor para encarar o que vier.

Aprender a finalizar, então é uma arte! Difícil de ser aprendida, mas necessária ao que quer que seja que tenhamos criado. O ciclo sempre tem que ser respeitado!
Mesmo porque, só ao deixar ir o que está pronto para ir, é que abrimos espaço para que o NOVO surja! 

Texto e ilustração de Cristina Balieiro

4 comentários

  1. Cristina, costumo me questionar sobre as finalizações dos processos criativos, e concordo com tuas ponderações. Em qualquer área, acredito, é preciso estar afinado com o "filho em construção" para ouvir seu sinal de "pronto". Senão, corre-se o risco, também, do exagero, da redundância, tanto nas palavras, nas pinceladas, nas pitadas… Abraço bem grande!

  2. Anônimo disse:

    Sabe, Rosana, eu acho que parece um pouco com o que acontece com nossos filhos reais e o processo de "deixá-los ir" viver suas próprias escolhas e vida…muito difícil e absolutamente necessário!Abraço
    Cris

  3. Querida amiga.
    Adorei seu texto e o final é especial:-Mesmo porque, só ao deixar ir o que está pronto para ir, é que abrimos espaço para que o NOVO surja!
    Me pegou de cheio, afinal estou de mudança para novas paragens.Caio no interior commuita alegria e espectativas. Deixar minha casa depois de longos 23 anos é deixar uma parte de mim, ainda mais porque aqui vivi e trabalhei em meu consultório, dei aulas e construí o futuro. E agora ele se apresenta novo, como um bebe, pronto para nascer e recomeçar.Obrigada pelas palavras.
    regina Figueiredo.

  4. Anônimo disse:

    Ô Re, que bom saber que minhas palavras te tocaram…acho que é porque estamos no mesmo barco: a VIDA!
    Bom NOVO para você!
    Cris

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