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Simpósio com Dalai Lama sobre Estados de Consciência : Encontro entre o Saber Tradicional e o Científico

Sexta feira eu fui nesse simpósio, que trouxe coisas bem interessantes para partilharmos aqui, num resumo resumidíssimo. De manhã, dois professores, uma da Universidade de Liége, Belgica, e outro de Cambridge, Inglaterra, mostraram estudos neurológicos feitos em pacientes em estado vegetativo ou em estado mínino de consciência. Pesquisar o que acontece com nossa mente nesses estados tem a vantagem de simplificar o objeto de estudo, o complexo cérebro humano, facilitando a tomada e verificação de dados.
Esses médicos fazem estímulos auditivos aos pacientes – como chamar o nome da pessoa, fazer perguntas com respostas sim ou não, pedir para imaginarem certas ações – e checam se há alguma resposta diretamente através de ressonância magnética no cérebro.
Por exemplo, ao pedir a alguns pacientes em coma (aparentemente além de qualquer comunicação ou entendimento), que levantassem o braço, a área ativada pelo cérebro deles foi exatamente a mesma que é ativada quando levantamos o braço.

E aonde isso leva? Primeiro, que a imaginação pode provocar em nossa mente o mesmo efeito que a ação concreta; segundo, que há níveis de consciência que parece que funcionam mesmo nessas condições… E outras questões nas quais ainda engatinhamos.
Se é assim em alguns estados de coma, o que acontece em nossa mente quando dormimos? Sonhamos? Meditamos? Há uma parte de nós que parece pairar além das circunstancias funcionais e físicas…

De tarde, um professor da USP, Edson Amaro Jr, entre outras coisas contou de uma pesquisa realizada aqui em SP, na qual foi escaneado o cérebro de pessoas antes, durante e depois de períodos de meditação que variavam em dias, duração e periodicidade. É visível em gráficos a resposta em melhoria em todos os sentidos a essa pratica. Falou sobre a maravilhosa plasticidade e elasticidade do cérebro, que permitem evolução e regeneração.

Uma professora de King´s College, Londres, Tamara Russel, ressalvando que há uma questão central no cérebro que ainda precisamos descobrir, falou longamente sobre o que chamou de mindfulness, que foi traduzido como presença mental, “o estar presente sem julgamento”, em síntese.
Mostrou testes que em pessoas com distúrbios de comportamento (depressão severa, psicoses, bipolares, etc), e sua reação a essas técnicas, ressalvando que – por favor, médicos e terapeutas, escutem – em muitos casos, 60% do sucesso de tratamentos deveram-se à interação positiva com o curador. Disse que o processo de doença emocional e de sofrimento extremo muitas vezes segue um processo com 3 etapas: 1- a pessoa é confrontada com alguma coisa perturbadora 2- ela não aceita, evita, não encara esse evento 3- passa a um estado de grande sofrimento.
E o que fazer? Segundo ela, aqui entra a prática da presença mental; convoca-se o “observador” em nós que diz: – Eu não sou a dor, eu vejo a dor”.
Em outras palavras, isso é a não-identificação de que falam os junguianos; é a criação (ou melhor, reconhecimento da existência) da testemunha interna. Fácil? Não, mas possível de ser praticado como um caminho para a vida toda, uma espécie de trilha neurológica, digamos. Ela indicou um site para quem quiser aprofundar, www.mindfulexperience.org.

Depois falou Geshe Lobsang Tenzin Negi, da Emory University, dos EUA, fazendo a ponte com o budismo. Disse que a mente é um elefante desgovernado, e que a presença mental é a corda que nos permite domar e aproveitar a fabulosa força desse belo animal. Trouxe gráficos que mostra grandes melhorias em alterações hormonais em pessoas em meditação.
E, o que para mim faz sentido, falou que, em pesquisa que fizeram medindo níveis de felicidade através de testes, vê-se que pessoas que focam suas vidas só em coisas externas e superficiais, que ficam apenas no “papo miúdo”, têm níveis de felicidade muito mais baixos do que os que meditam, os que procuram a presença, os que focam mais em valores internos e profundos. Ou seja, aquela historia de “ah, vamos pensar só em diversão que assim a gente aproveita mais a vida” é pura besteira.
E é o controle, ou melhor, o saber lidar com estados emocionais que permite que a pessoa tenha melhor funcionamento mental e intelectual.

Enquanto isso tudo rolava, o Dalai Lama ouvia, e de vez em quando falava algo. Quando os palestrantes terminaram, embora o apresentador tivesse avisado que não poderia haver perguntas da platéia, o Dalai não só as liberou como também estendeu o horário de acabar o evento.
Mas quem fez mais perguntas foi ele mesmo: ficou perguntando um monte de coisa aos pesquisadores, num entusiasmo juvenil.
Eu acho isso maravilhoso nele: Sua Santidade, o Oceano de Sabedoria, Premio Nobel da Paz, um homem notoriamente estudado, conserva sua curiosidade viva e tem uma humildade em se colocar como não-sabedor de tudo que me impressiona. Quantos, sabendo muito menos, querem só falar e não ouvir? Os tolos, que acham que só tem de dar lições aos outros…

Até mesmo, quando alguém da platéia perguntou a ele sobre a diferença entre mente, cérebro e consciência, o Dalai respondeu:
Mas é para mim que você pergunta isso? Esses doutores sabem mais do que eu sobre isso, e alem disso falam um inglês bem melhor…
Todos riram, como a gente sempre ri com ele. Ele se coça, espirra, ri de seu espirro falando que acordou a audiência, e se comporta com uma simplicidade espontânea que nos encanta.

Como mensagem, Dalai Lama ressaltou a compaixão, a empatia, a convivência com a diversidade, a separação da ciência com a religião, o não fundamentalismo. Entre outras coisas, disse que os condutores de homens, em todos os campos, têm de ser eles mesmos exemplos de conduta ética; particularmente, eu acho que os buscadores têm de estar atentos a isso.
Como gente, ele mostra-se um ser humano – muito humano – e ao mesmo tempo um dos mais iluminados portadores da Luz que brilha em todos nós, talvez situada lá no fundo dessa coisa misteriosa e vasta chamada mente.

1 comentário

  1. Mit Mujalli disse:

    Viva!!! Presença sempre luminosa e agora na velocidade da luz de tanto que ele tem que erradiar no mundo passa rapidinho…poucos são como ele e muitos são os que precisam dessa genuina luz amorosa e bondosa

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