O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Saindo das Águas

Dois de fevereiro de 2006, dia de Iemanjá, nosso livro O FEMININO E O SAGRADO – MULHERES NA JORNADA DO HERÓI começou a nascer.

E começou com uma consulta ao I Ching, porque queríamos os conselhos e recomendações desse oráculo sobre nosso projeto. Continuamos a consulta-lo durante toda a elaboração do trabalho, e assim fazemos até agora. Hoje, um ano depois que o projeto virou livro, blog, palestras, leitores, queremos dividir com vocês como foi aquela jogada e as reflexões que na época ela nos trouxe.
E, novidade: estamos no twitter! Link aí ao lado.
A maior virtude é como a água
Que dá vida a dez mil seres e a nada se opõe
Por isso ambos são comparáveis ao Tao

 

Tao Te Ching, VIII.

 

A partir da nossa própria experiência que, depois de longas conversas, dentre outras coisas identificamos como busca pelo sagrado, resolvemos iniciar uma pesquisa a respeito de algumas vivencias espirituais femininas aqui no Brasil. Acima de tudo, começamos essa pesquisa com intenção de ouvir e depois compartilhar os depoimentos que nossas entrevistadas nos trouxeram sobre o tema.

 

Em vez de hipóteses, tínhamos muitas perguntas: sobre o que é a maturidade espiritual, sobre as formas de vivenciar o mito, sobre como ficam as relações com os outros quando a dedicação a algo assim é fator preponderante na vida…

 

E – esse é, para nós duas, um ponto importante – como essas respostas nos dizem respeito, pessoalmente. Fomos buscar em nós mesmas a ressonância do que foi ouvido: será aquilo verdadeiro para nós também? Porque, sempre, é a nossa própria verdade o objeto da busca; somos as observadoras e as observadas…

 

Então, a primeira consulta que fizemos foi ao I Ching. E a pergunta foi: Qual figura pode sintetizar tanto o objeto do trabalho quanto o enfoque que nós devemos dar a ele? Quais elementos devem nos guiar?

 

Tiramos o hexagrama 29: a linha continua representa uma torrente cercada pela terra, que são as duas linhas interrompidas. Esse trigrama repetido significa, primeiramente, Água sobre Água.

 

Para o Tao, a água representa a suprema virtude, pois a torrente flui por todos os terrenos e desvia-se ou contorna os obstáculos, transmudando-se em fonte, regato, rio, cachoeira, torrente subterrânea, até fundir-se com as grandes águas do oceano. É simplicidade, adaptação, diversidade de formas e também liberdade, pois a água não perde sua verdadeira natureza, mesmo quando totalmente reprimida debaixo da terra ou saltando desfiladeiros profundos.

 

· Para nós, esse foi um lembrete para manter a simplicidade, a clareza, a humildade e a fidelidade à idéia original do trabalho, sem nos confundirmos com a diversidade das manifestações que se apresentassem, nem fazer algo acessível apenas a quem está nos altos picos – a água deve estar disponível para todos.

 

Nesse hexagrama a torrente está contida pela terra, em permanente tensão. Assim, outro significado dele é o perigo, pois a torrente pode ser um obstáculo para o homem que quer atravessá-la. Mas, se ela representa um perigo para o homem, pois tem a capacidade de afogar, cavar abismos e inundar os campos, pode haver um perigo ainda maior em seu represamento.

 

· Para nós, esse foi um conselho para deixar livre a fluidez mas atentar ao método, porque esse hexagrama também se refere ao aprendizado. Entre outras coisas, isso implicava que deveríamos mostrar não só a paisagem pronta – os resultados, as entrevistas, as analises – mas também o método de reconstrução da paisagem, ou seja, o processo em que foi gerado.

 

O papel tradicional feminino é o da Terra, a que tudo suporta e sustenta, a que nutre. O I Ching nos reassegurou essas funções confortadoras, sim, mas acrescentando a estas a fluidez e a simplicidade dentro da multiciplicidade.

 

E nos convidou a mergulhar na torrente, naquele dia da Rainha do Mar, lugar de todas as possibilidades.

 

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