O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Re-virando a página: o Resignificado


Em nossa palestra de Sorocaba, depois que falamos sobre como “contamos a própria história”, uma simpática senhora ruiva nos perguntou:

– Pelo que estou entendendo, vocês estão dizendo que podemos fazer várias leituras de nossa própria vida, não é? Dependendo do modo que a encaramos, ela vai parecer diferente…
Exatamente! Os neurocientistas dizem que nossas memórias não são guardadas de forma continua, mas com fragmentos de informações, que podem ser modificados por novas experiências.
Em outras palavras, lembramos de eventos passados juntando flashes de alguns momentos selecionados, que juntos vão gerar determinada historia.
O clima dessa história vai depender dos nossos valores e a quais momentos damos mais atenção.
É fácil perceber isso.
Por exemplo, estive outro dia com uma moça que fez uma grande viagem para a Europa. Depois de falar um pouquinho sobre os belos lugares por onde andou, ficou um tempão contando como o guia foi ineficiente, a comida ruim, os aeroportos lotados, etc.
Ou seja, ela prestou mais atenção ao que não saiu perfeito. E agora, recordando os momentos nos quais as coisas não deram certo, conta a historia de uma viagem mal sucedida. Se escrevesse um livro sobre isso, já pensou como seria chato?
Não estou defendendo que a gente olhe só o lado bom das coisas, não.
Mas acho que é preciso ter em mente que, como não somos maquinas, observamos os eventos sob determinados pontos de vista, que tem mais a ver com nossa visão de mundo do que com fatos “objetivos”.
Por isso, quando (a partir de novas experiências) mudamos nossa visão de mundo, a nossa historia pessoal muda.
Hoje, com a idade que estou, com o grau de consciência que a duras penas vou conseguindo, posso ver certos eventos e fases da minha vida de maneira diferente de quando pensava nisso algum tempo atrás.
A isso chamamos de resignificado, uma das importantes etapas da Jornada do Herói.
Não temos o controle de tudo que nos acontece, claro, e não somos um livro novo e em branco, no qual podemos inventar uma vida cor de rosa.
Mas podemos, sim, ser o escritor que narra e edita não só o atual capítulo da própria historia, mas também os que já foram escritos. As tragédias e comedias que vivemos merecem ser honradas com um bom texto, não acha?
Alguém disse: Nunca é tarde para ter uma infância feliz.
Assim, uma pagina virada pode ser re-virada… proporcionando uma leitura melhor e até, quem sabe, uma obra prima!

Se voce gostou desse texto, leia também Um telefonema sobre irmãs e Mestres
 

Texto e criação gráfica de Beatriz Del Picchia, desenhos Cristina Balieiro

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