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Por que as mulheres não dão credito a si mesmas? O olhar feminino sobre a guerra de Svetlana Aleksiévitch

Eu e Cris fazemos entrevistas, pesquisando mitologias e fazemos os Encontros mensais em busca da voz feminina de ontem e hoje. Em busca de nós mesmas, afinal. Outras mulheres estão fazendo o mesmo em outras áreas.

Uma das mais importantes nisso é Svetlana Aleksiévitch, ucraniana jornalista e escritora vencedora do Nobel de literatura de 2015. Ela entrevistou várias mulheres da Ucrânia e União Sovietica que participaram da Segunda Guerra Mundial, e dos relatos coletados escreveu A guerra não tem rosto de mulher (Companhia das Letras). Livro muito bom, para quem tem estomago forte. Abaixo trecho da introdução, que tem a ver com tudo que nós acreditamos e fazemos.

“Já aconteceram milhares de guerras – e pequenas e grandes, famosas e desconhecidas. E o que se escreveu sobre ela é ainda mais numeroso. Mas… foi escrito por homens, isso fica claro na hora. Tudo o que sabemos da guerra conhecemos por uma “voz masculina”. Já as mulheres estão caladas.

Ninguém, além de mim, fazia perguntas para minha avó. Para minha mãe. Até as que estiveram no front estão caladas. Se de repente começam a lembrar, contam não a guerra “feminina” mas a “masculina”. Seguem o cânone. E só em casa, ou depois de derramar alguma lagrima junto às amigas do front, elas começam a falar da sua guerra, que eu desconhecia. Não só eu, todos nós. (…)

Quando as mulheres falam, não aparece nunca, ou quase nunca, aquilo que estamos acostumadas a ler e escutar: como umas pessoas heroicamente mataram outras e venceram. Ou perderam. Qual foi a técnica e quais os generais. Os relatos femininos são outros e falam de outras coisas. A guerra “feminina” tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e espaço sentimental. Nela, não há heróis nem façanhas incríveis, há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa desumanamente humana. E ali não sofrem apenas elas (as pessoas!), mas também a terra, os pássaros, as arvores. Todos os que vivem conosco na terra. Sofrem sem palavras, o que é ainda mais terrível.

Mas por quê? – perguntei-me mais de uma vez. – Por que, depois de defender e ocupar seu lugar em uma mundo antes absolutamente masculino, as mulheres não defenderam sua história? Suas palavras e seus sentimentos? Não deram credito a si mesmas. Um mundo inteiro foi escondido de nós. A guerra delas permaneceu desconhecida…”

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