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Poesia é Remédio – Chupetas Punhetas Guitarras de Elisa Lucinda

Elisa Lucinda, brasileira nascida em 1958, é poetisa, jornalista, cantora e atriz. Assisti-la no teatro é inesquecível; a gente sente que ela declama poesias com a força com que as compõe. – “O meu olhar, a minha poesia e meu pensamento estão em tudo que eu toco”, ela disse.

Leio esse poema quando estou sendo mãezona demais, tipo faço-tudo-por-vocês-seus-ingratos. É uma ducha de água fria, é uma lucidez sem dó mas com um lirismo que vai ser reconhecido por quem está no estágio mamadeiras ou já entrou pela fase de avó.

Ele também traz benefícios para os filhos que sentem aquele remorso ou culpa sem motivo aparente mas que as mães sabem provocar.

Então, sugiro que seja lido tomando um milk shake de chocolate, para lembrar de quando nós mesmas deixamos nossas mães.

PS– A poesia que Elisa Lucinda declama nesse vídeo é outra, mas é de uma beleza… que só vendo.

Chupetas Punhetas Guitarras

Choram meus filhos pela casa
fraldas colos fanfarras
Meus filhos choram querendo talvez meu peito
ou talvez o mesmo único leito que reservei pra mim
Assim aprendi a doar
com o pranto deles
Na marra aprendi a dar mundo a quem do mundo é
A quem ao mundo pertence e de quem sou mera babá
Um dia serei irremediavelmente defasada, demodê
Meus filhos berram meu nome função
querendo pão, ternura, verdade e ainda possibilidade de ilusão
Meus filhos cometem travessuras sábias
no tapa bumerangue da malcriação
Eu que por eles explodi buceta afora afeto adentro
ingiro sozinha o ouro excremento desta generosidade
Aprendo que não valho nada em mim
Que criar pessoa é criar futuro
não há portanto recompensa, indenização
mesquinhas voltas, efêmeros trocos.
Choram pela casa e eu ouço sem ouvidos
porque meus sentidos vivem agora sob a égide da alma
Chupetas punhetas guitarras
meus filhos babam conhecimentos da nova era
no chão de minha casa.
Essa deve ser minha felicidade.
Aprendo a dar meu eu, aquilo que não tem cópia
tampouco similar
E o tempo, esse cuidadoso alfaiate, não me conta nada
Assíduo guardador dos nossos melhores segredos
sabe o enredo da estória
Vai soprando tudo aos poucos e muito aos pouquinhos
Faz eu lembrar que meu pai também já foi pequenininho
Que só por ele ter podido ser meu ontem
Só por ele ter fodido com desesperado desejo minha mãe
um dia eu existi.
Choram meus filhos pela Nasa onde passeamos planetas e reveses
Eu escuto seus computadores, eu limpo suas fezes
faço compressas pra febre, afirmo que quero morrer antes deles
assino um documento onde aceito de bom grado
lhes ter sido a mala o malote a estrela guia
Um dia eles amarão com a mesma grandeza que eu
uma pessoa que não pode ser eu
Serão seus filhos suas mulheres seus homens
Eu serei aquela que receberá sua escassa visita
Não serei a preferida.
Serei a quem se agradece displicente
pelo adianto, pela carona
de poderem ter sido humanidade.
Choram meus filhos pela casa
Eu sou a recessiva bússola
a cegonha a garça
com um único presente na mão:
Saber que o amor só é amor quando é troca
E a troca só tem graça quando é de graça.

Se você quiser ler outra poesia com comentário, clique aqui: MOTIVO, de Cecília Meireles

Se quiser ler um artigo sobre mães e mitologia, clique aqui: A Grande Mãe

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