O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O Feminino e os Livros: VIVENDO PELA PALAVRA

Há muitos anos atrás, quando ainda trabalhava em RH numa multinacional americana, fui encarregada de liderar um projeto sobre Diversidade, projeto que a empresa tinha em todos os países onde atuava. Completamente ignorante no assunto comecei a buscar o máximo de informações que podia e por conta disso fui participar de um simpósio, ou algo parecido sobre a questão dos negros e do racismo no Brasil. Era organizado por diversas entidades ligadas aos movimentos negros existentes, especialmente em São Paulo. Foram 2 dias muito especiais para mim, pois aquele evento mudou muito da minha forma de ver o mundo, mas quanto a isso não cabe discutir aqui. Estou contando essa história porque algo ocorreu lá que tem a ver com o livro que vou falar nesse post. 

No simpósio, que aconteceu no Sesc Vila Mariana, havia uma pequena “livraria” expondo livros sobre os diversos temas tratados. Claro que fui lá e procurava, de forma mais focada, livros que falassem sobre a questão dos preconceitos e mulheres, mitologia, psicologia, enfim ligados a meus interesses particulares. Enquanto procurava, vi ao meu lado uma mulher negra, mais ou menos da minha idade na época (40 e alguns anos) que também “fuçava” nos livros. Nos olhamos e nos sorrimos e então, comentei com ela, mais ou menos assim: “não é fácil ser mulher nessa cultura e começar a envelhecer, não é, precisamos buscar referências…acho que estamos nesse momento, não?”. E, então ela me respondeu: “Não, você não está aonde eu estou…você não sabe nada de mim, pois você não sabe o que é ser mulher e negra, você não sabe o que é ser mulher e negra e envelhecer, você não sabe o que é ser mulher e negra neste país, nesta cultura”. Ela falou, sem agressividade nenhuma, mas com muita força e se afastou. Fiquei ali parada, sem saber como lidar com aquela verdade absoluta da qual eu era inconsciente e que, de alguma forma, ela tinha esfregado na minha cara! 

 Isso faz quase 20 anos e eu não esqueci, acho que nunca vou esquecer. De fato eu, branca (e claro que, como boa brasileira, com ancestrais negros e índios, mas que meu tom de pele não denuncia), classe média, com um diploma universitário, enfim tudo o que me faz privilegiada, na verdade, não sei o que é ser uma mulher negra nesse meu país racista, machista e profundamente desigual que é o Brasil. 
É claro que reflito e escrevo sobre o Feminino a partir da minha perspectiva e não acho que possa ser de outro jeito pois quero fazer isso de forma pessoal e não conceitual e abstrata. Mas, também posso tentar entender como é ser mulher de diferentes perspectivas e isso me fez e me faz ler diversos livros de escritoras de outras culturas. 

Então, quanto a tentar entender , de alguma forma, “como”ser uma mulher negra numa cultura branca, machista e racista, um dos livros que mais me ajudou foi o de uma escritora americana  negra, Alice Walker. 
O livro do qual falo é VIVENDO PELA PALAVRA, editora Rocco, 1988. Ele é formado por uma série de artigos que ela escreveu para revistas, especialmente feministas, palestras que proferiu em diferentes lugares, trechos dos seus diários e outros escritos diversos, todos durante a década de 1980. 

São maravilhosamente bem escritos, com uma carga emocional bem feminina e tratam de temas variados, mas sempre tendo como tema de fundo a vivência de ser minoria e discriminada pela cultura da elite predominante, ao mesmo tempo que enfatiza a vitalidade da cultura dos discriminados: dos negros, dos índios, das mulheres, etc. 
Esse enfoque de não só se colocar como discriminada e despossuída, mas como representante e herdeira de uma outra força cultural é sensacional: nos dá uma perspectiva muito mais abrangente e rica. Além disso, ela escreve sempre pela ótica do pessoal, dos reflexos disso no mundo interno, no comportamento, nos sentimentos. Ela não esquece a perspectiva política e social, mas também não esquece o impacto nas pessoas e nela mesma, o que me encanta demais! 

Apesar de ter gostado de todos os artigos, gostei ainda mais de alguns: NO RECESSO DA ALMA, ela responde a uma amiga sobre como estava recebendo as críticas, especialmente dos intelectuais negros sobre o personagem Mister, do seu livro A COR PÚRPURA. Sua resposta a essa mulher é para mim um manifesto à liberdade! Outro artigo, engraçado, mas ao mesmo tempo profundo é CABELO OPRIMIDO É UM TETO PARA O CÉREBRO. Fiquei muito emocionada com MEU PAI. Em TUDO É UM SER HUMANO somos apresentados a uma visão ecológica profunda, radical e espiritual. Na verdade, de forma mais explícita ou de forma mais sutil, em cada texto temos a dimensão sagrada da vida e da Mãe Terra sendo considerada. Alice Walker fala inclusive que esse seu livro, mais do que os outros, reflete passos da sua jornada espiritual. 

Eu amo esse belo livro pelo que ele me ensinou, me fez refletir e me emocionou! Leiam, vale demais a pena!

Texto de Cristina Balieiro

5 comentários

  1. Oi Cristina,

    Vim aqui especialmente para agradecer por essas dicas de livros sobre o feminino. Encontrei vários na estante virtual (Outras Mulheres, As Letras do Meu Nome, A Escada Espiral). São todos maravilhosos!
    Acabei de ler a Travessia para Avalon (ed. portuguesa) da Jean Bolen. Foi um turning point neste momento da minha vida. Amei o livro! Ela fez uma viagem que eu sempre quis fazer! As reflexões e os fatos de sua vida que ela compartilha são lindos e profundos. Tem alguns trechos que não canso de reler.
    O momento em que o li também foi especial, durante uma viagem que fiz em busca de conexão interior.
    Teve um efeito profundo, cuja extensão ainda não consigo avaliar.
    Muito Obrigada!
    Abraço e ótimo final de semana

  2. Cristiane,

    Também adorei o livro, que li por sugestão da Cris, e acabei fazendo mesmo a viagem que é descrita. Foi maravilhoso! Quando puder, faça, levando o livro. Se bem que ele é tão forte que a gente viaja nele, mesmo sem ir nos lugares, porque as viagens verdadeiramente transformadoras são internas. bj Bia

  3. elaine p b disse:

    Oi Cris!!
    To lascada!! Me encantam todas as suas dicas preciosas sobre livros, feminino, alma e altruísmo para com o mundo, mas ando tão sem tempo…. Gostaria de ter mais tempo para ler, apreciar e trocar! Mas enquanto isso não ocorre vou planejando e criando um espacinho aqui, outro ali, para dar conta de tantas letras para nossa alma!!
    fica um forte abraço e gratidão à você e a Bia pela dedicação em animar a consciência do feminino, esclarecendo, abrindo espaços <3

    Beijos

    1. crisbalieiro disse:

      Elaine, tem livros que compro e deixo sem ler por até 5 anos…e, um dia, a gente “sem querer”, acha ele perdido na nossa estante, começa a ler como não quer nada e de repente, zazz, foi fisgada e não sabe como conseguiu viver até aqui sem te-lo lido! Livros são muito misteriosos. Beijos querida
      Cris

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *