O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O demônio nas relações amorosas


Há casais complicados. Aqueles que, ao vê-los, a gente se pergunta:
– Mas que diabo ele viu nela?!?
Bom, talvez seja justamente isso que ele tenha visto nela: o diabo.

Claro que estou falando do demônio metáforico, como explica a analista junguiana Marie Louise von Franz: “ – As pessoas que têm uma natureza excessivamente apaixonada, uma espécie de natureza demoníaca, estão procurando amorosamente uma pessoa humana, ou uma situação, em relação á qual possam levar a pior, e desprezam qualquer parceiro ou situação em que sua paixão triunfe… “
É o caso daquelas mulheres que largam parceiros bonzinhos, sobre quem os amigos dizem: – ”mas ele é tão perfeito!”, e vão atrás de algum cafajeste, ou do conquistador que fica trocando de mulher até achar uma não lhe dá muita bola, por quem se apaixona. Conhecemos vários casos desses, não?

Von Franz continua: “Digamos que alguém é possuído por um demônio de poder. Se puder dominar as pessoas à sua volta, esse alguém não é feliz, mas permanece intranqüilo; ele domina a familia toda, passa a dominar também fora de casa e na vida profissional, mas continua intranqüilo… Ele anseia por alguém que possa derrotá-lo, embora não goste disso, naturalmente. É uma atitude ambígua, pois ele detesta e ao mesmo tempo anseia por alguém ou por algo que ponha fim a seu poder”
Daí o descontentamento com parceiros dóceis ou leves demais. Pessoas que tem temperamento forte buscam alguém que os ajude a fazer o exorcismo. Penso, por exemplo, em alguns artistas como Kurt Cobain, que só em Courtney Love achou um parceiro com demônio igual ou maior do que o dele; em John Lennon e Yoko Ono, na recém falecida Elisabeth Taylor e Richard Burton…

Na verdade, von Franz afirma que, se uma pessoa está dominada por demônios, ela mesma precisa arder em seu inferno até que eles se acalmem. Não tem jeito: ela terá de lidar com todos eles, um por um, “sentar-se no inferno e assar. O consolo fácil é um erro crasso… assim como seguir cegamente as próprias paixões, que conduzirão sempre à mesma derrota.”

Podemos ver que esse não é um caminho tranquilo, mas temperamento não se escolhe. O que se pode é tentar descobrir como viver com ele. E, pelo visto, não adianta querer um parceiro que jogue água em nosso próprio incêndio, porque aí nós vamos é tentar queimar o infeliz também.

A solução de sentar no fogo e queimar significa deixar-se arder na emoção, de preferência sem meter os outros nisso (com exceção do analista ou coisa parecida), até que o fogo esmoreça e se equilibre. Conforme a pessoa se trabalha, experimenta outros estados de ser e alcança uma maior compreensão de si e dos outros, essa mesma energia demoníaca poderá vir a agir em seu favor, como um grande gênio da lâmpada domado.

Poucos fazem isso, porque a obra alquímica é árdua e lenta e a recompensa não é visível. Buscar a pedra filosofal não é para todos, mas, se encontrada, dizem que é tesouro sem igual na Terra. Acho que só estar no Caminho dela já vale a pena.

Eu estava acabando esse texto quando saiu essa tirinha do Laerte na Folha. Tudo a ver, não?
 Texto de Beatriz Del Picchia

8 comentários

  1. Anônimo disse:

    Eu entendo MUITO bem essa história de brincar com fogo nas paixões: nada para mim foi ameno nesse território. Mas, sem dúvida, me forjou!!!
    Cris

  2. Já estou assando e ficando bem-passada… hahaha! Adorei o post, me veio aquela frase: tá no inferno, abraça o capeta… A gente brinca porque o que dizes é muito verdadeiro. Depois dizem que a mulher é o diabo, mas que tem muito homem capeta por aí também tem… Beijos nas duas!

  3. Mulher é o diabo, homem é o diabo, mas todo mundo brinca com fogo de vez em quando!Bia

  4. Ana Caruso disse:

    Cacete!!! E como é que eu sei se eu fiz isso direito ou não? Tenho a impressão de que segui o roteiro do jeitinho que vc disse…

    Inclusive, deixando a pessoa fazer tudo do seu jeito, acho que a fiz enxergar-se no seu vazio interior. E pior: sem tem com quem lutar, porque eu não estava "armada" – claro que isso aconteceu às custas do meu bem-estar e "amor-próprio", infelizmente, porque sempre respinga na gente.

    Então, será que o fato da coisa ter terminado como que pelo "dedo de deus" significa que a missão foi cumprida? Arrancaram o "homi" daqui porque ele empacou na recusa de ver seu próprio vazio, por mais que esse vazio estivesse escancarado por mim na sua frente???
    Tomara…

    Obrigada pelo texto… Acho que “sincronicamente” ele respondeu o que vim pensando no onibus agora vindo pra casa…

  5. É mesmo, Ana, é como se alguns inquietos não suportassem os (próprios) vazios… e procurassem qualquer coisa para preencher isso – uma boa luta,por exemplo. Von Franz diz que, no fundo, talvez eles queiram mesmo é a própria derrota.

  6. Anônimo disse:

    Beatriz querida,
    uau, que texto…gostaria da referencia da Von Franz. Me interessa muito…quero entender mais sobre esses relações assustadoras e o que nosa leva a fazer o pacto do vamos queimar juntos…
    bjs, Inês

  7. Inês, os trechos citados da Von Franz estão na nona palestra, chamada Aurora Consurgens, do seu livro Alquimia, paginas 223 e 225. Estudamos esse trabalho dela há um bom tempo, e ele sempre dá o que pensar. bjs

  8. Bem, na casa da minha tia, tem pregado na parede há 50 anos um quadro com os dizeres " Os homens são uns diabos, não há mulher que o negue, mas, todas elas procuram, um diabo que as carregue" Bjs

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