O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Matutu, e o céu na terra

Em todo o mundo existem lugares especiais.
Percebemos que estamos num deles porque temos a sensação de atravessar a fronteira para outro reino, mais parecido com o dos sonhos.

São como portais; se permitirmos, ali somos levados a experiências que podem afetar nossas percepções usuais de tempo ou espaço, trazer revelações no domínio do sagrado ou de nós mesmos, ou, simplesmente, nos fazer palcos de epifanias.
Sim, palco, porque epifanias são coisas que nos acontecem, subitamente nos tomando de assalto com uma apreensão intuitiva e ricamente inesperada de outros níveis de realidade.

Um lugar assim é o Vale do Matutu.
Quer uma prova? Olhe essa foto, de autoria de Flávio Gago.
A Grande Mãe Paineira captura com suas dezenas de braços todas as estrelas da Via Láctea. Juro, quem senta embaixo dela é levado, como por mágico elevador, a conhecê-las todas. Depois, de volta a terra, traz o céu consigo, onde ele fica até que somos arremessados a alguma banalidade ou, com sorte, a outra epifania.

Lugar (como Shangrilá, escondido nas montanhas) entre Minas, São Paulo e o Rio, no Vale do Matutu há pousadas bacanas, essa paineira, uma capela branca incrustada de mosaicos e dedicada à Virgem, cachoeiras, vacas, estradinhas de terra e lama, um bocado de gente satisfeitamente perdida e de gente que se encontrou, e inúmeras lendas.

Reza a lenda mais famosa que, certa noite, um caboclo chegou a uma pousada e perguntou para o dono:
– Onquotô?
Antes que o dono da pousada entendesse a pergunta, o caboclo fez outra:
– Pronquovô?
E, em seguida, de olhão arregalado:
– Quemquosô?

Traduzido do caboclês:
– Onde estou?
– Para onde vou?
– Quem eu sou?

Não sei o que o dono respondeu, se é que.
Será que todos nós saberíamos responder onde estamos, para onde vamos, e quem somos?

Quanto a mim, sei que na maioria das vezes estou em São Paulo, quando não estou em parte (a cabeça, ou o coração) na minha velha casa do interior, ou em Paris, ou no Matutu.

Para onde eu vou? Bom, no Matutu dizem que quem mergulha no rio de lá, o Aiuruoca, vai sair no Ganges, na Índia. Como ainda não mergulhei nem no Aiuruoca nem no Ganges, respondo que vou tentar fazer esse caminho fluvial.

E quem eu sou… Uma mulher de meia idade, uma metamorfose ambulante, uma obra inacabada, às vezes uma breve epifania, e sei mais nada não, sô.

Esse artigo é dedicado a nossos amigos Cássia Simone e Mit Mujalli, do conjunto Vak, de quem ouço os CDs Lotus Branco e Essencial, do Candido de Alencar Machado.
 

Texto de Beatriz Del Picchia, foto Flavio Gago

3 comentários

  1. Mit Mujalli disse:

    Lindo lindo amada Bia, gratíssimo!Sua escrita inspira nóis a fazer poesia e cantiga com viola caipira celebrando a vida na casinha branca no vale do matutu a bera do fogão de lenha com cafelin e pão de queijo superior e quando nóis chega no fim do rumo aonde tiver que chegar é jogar as cinzas nos rios do matutu e na mãe paineira que nos levará no caminho de vorta as estrelas da via lactea pra modo de continuar cantando epifanias de alegria da vida na terra linda.

  2. Cassia disse:

    Maravilhoso, Bia é ter um lugar assim para estar e amigas queridas para compartilhar… O Matutu é o lar da minha alma; a paineira, o colo de minha mãe. Quando vocês foram me buscar para garantir que voltaria foram tocadas com a magia própria deste lugar. Ele fica pra sempre preservado dentro de nós… Gracias pela imensa sensibilidade!

  3. Eu é que agradeço o privilegio de compartilhar essa experiencia com amigos maravilhosos…

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