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Filme: O espião que sabia demais

Esse filme é baseado em Tinker Tailor Soldier Spy, um dos livros de John Le Carré.

Tendo de fato trabalhado no MI-5, o mitico serviço de espionagem britanico dos tempos da Guerra Fria, ele descreve esse mundo como burocratico, cheio de panelinhas, esnobe, muitas vezes em disputas internas de poder.
Por exemplo, outro de seus livros, “A guerra no espelho”, trata de uma luta entre departamentos que qualquer executivo de corporação ou funcionario publico de alto escalão vai reconhecer…
Com pé na realidade, as obras de Le Carré não tem herois bacanudos como James Bond (que, alias, está ficando cada vez mais ação e menos inteligencia e senso de humor, americanizando-se… mas isso é outra historia.)

Seu anti herói George Smiley é cerebral, desapiedado, talvez até um tanto sadico, cornudo quase resignado, contido, desencantado, longe da bobagem infantil somos-muito-melhores-do-que-eles.
Em certo trecho desse filme, ele chega a dizer a seu arqui-inimigo comunista: – Eu e voce não somos assim tão diferentes…

O espião que sabia demais começa com a suspeita de que há um espião comunista no departamento, e Smiley é convocado a descobrir quem é a maçã podre.
Embora tenha sido demitido e posto de lado, ele concorda em voltar, trabalhando nas sombras. Assim como ama sua esposa adultera, Smiley não abandona as velhas lealdades e não hesita em fazer sua parte. Como diz em outro livro (sou mega fã dele), sente “uma vaga gratidão”, e isso é o suficiente.
O enredo tem elementos de um fato concreto ocorrido no começo dos anos 60, a descoberta de um nucleo de espiões comunistas, apelidado de turma de Cambridge, infiltrado em altos escalões da sociedade e da contra espionagem inglesa.
Aqui o foco é em apenas num deles, que na vida real foi Kim Philb, um sedutor agente duplo que terminou seus dias numa datcha perto de Moscou, reclamando que sentia falta do uisque, do fumo e dos jornais de Londres, e cuja interessante biografia pode ser encontrada em sebos.
No filme, que teve a assistencia do proprio Le Carré, o tempo não é linear, indo e vindo ao sabor das recordações com que Smiley tenta decifrar o enigma. Os personagens são dubios e contraditorios, as cores cinzentas, e a Londres dos anos 70 um marco em sí.
Os ambientes parecem precisar de um bom aspirador tanto quanto o Serviço Secreto o necessitava, mas em nenhum momento perdem a classe.
Achei merecida a indicação ao Oscar de melhor ator a Gary Oldman, que compôs Smiley com a intensidade minimalista que ele merece.

O Espião Que Sabia Demais (Tinker Taylor Soldier Spy)
França/Inglaterra/Alemanha 2011 – 127 min.
Direção: Tomas Alfredson. Roteiro: Bridget O’Connor e Peter Straughan.
Elenco: Gary Oldman, Colin Firth, Toby Jones, Ciarán Hinds, John Hurt, Mark Strong, Tom Hardy

Texto de Beatriz Del Picchia



1 comentário

  1. Eu tbem gosto muito dos livros do Smiley (não tanto qto a Bia). Na nossa troca de livros ela me emprestou a trilogia dele, que eu havia lido na juventude, através da minha mãe. Gostei muito do filme tbem. É lento, passado a maior parte do tempo em lugares fechados, tem uma trama intrincada, mas não absurda, dá para acompanhar! A vilência não é espetacularizada e ninguém posa de mocinho. Ou seja: é um filme de entretenimento para adultos! E o Gari Oldeman está mesmo ótimo!

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