O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Faça amor, não faça guerra

Nossa querida amiga e minha editora Lizandra Magon de Almeida publicou um belo texto sobre os grupos de mulheres e que, com sua autorização reproduzimos aqui.

“… a história toda está repleta de guerras. Se a mulher tivesse igualdade de oportunidades de crescimento, o mundo não teria visto tantas guerras. Porque, em todas as guerras, são os homens que morrem, mas as mulheres que sofrem.”

Ouvi essa frase do Osho hoje à tarde da minha terapeuta, depois que contei da minha experiência hoje pela manhã com o grupo Mulheres Seguras. Fui uma das 20 finalistas de um projeto patrocinado pela Liberty Seguros, com a mentoria de Viviane Duarte, à frente da Plano Feminino, uma consultoria voltada para a promoção da igualdade das mulheres no mercado de trabalho.
Ao longo de dois meses, Viviane reuniu mais de mil mulheres em um grupo de LinkedIn que interagiu ativamente. Muitas perguntas e uma quantidade ainda maior de respostas, de gente disponível a compartilhar suas experiências com mulheres espalhadas por todo o Brasil, a maioria delas desconhecidas. Das mil mulheres, 100 foram escolhidas para receber uma mentoria da Viviane. E dessas, 20 foram as finalistas que se apresentaram hoje.
Lá estava eu pela manhã, ao lado de toda essa galera, apresentando a Pólen, minha empresa que desde 2001 presta serviços de conteúdo e edição para editoras, empresas, associações culturais e muitos outros clientes, e que desde 2014 também virou uma editora, com a proposta de discutir questões da mulher e de publicar livros infantis igualmente provocadores (e tudo muito lindo, modéstia à parte).
Os projetos não podiam ser mais variados e o que mais unia todos eles era a clara identificação de uma dor. Todos os projetos partiram da necessidade de um grupo. Tem uma consultoria voltada para a inclusão de pessoas com deficiência que não só auxilia a empresa no recrutamento como treina a equipe para receber o colega deficiente que chegará. Tem mina nerd que montou um negócio social que coloca mulheres tricoteiras para produzir acessórios nerds – tipo os cachecóis dos times de quadribol do Harry Potter – juntando nerdice e empoderamento de mulheres vulneráveis a partir da necessidade de trabalhar em casa depois de ter uma filha. Tem produtora de eventos que decidiu compartilhar o que sabia e abriu uma escola voltada a formar profissionais para a área de entretenimento.
No começo, tivemos que falar sobre a experiência do grupo e uma das meninas disse: “Existia uma competição, mas era uma competição assim: eu te dou a mão e a gente vai junto”. É isso que aprendi nos quase dez anos de grupos de mulheres de que participo.
Começou com um grupo de apoio emocional, baseado em arquétipos mitológicos e coordenado por duas psicólogas (hoje minhas autoras) – um verdadeiro divisor de águas na minha trajetória, de onde trago amigas para tudo (tudo significa tudo mesmo) que eu possa precisar na minha vida pessoal e profissional. Teve retiro com todos os tipos de terapias possíveis, psicológicas, xamânicas, corporais, incluindo um divertidíssimo banho de rio com várias mulheres nuas besuntadas de aveia dos pés à cabeça (a pele fica incrível, posso afirmar). E teve a edição de 2015/16 do projeto 10.000 Mulheres, patrocinado pelo banco Goldman Sachs e realizado pela Fundação Getúlio Vargas, que além do choque de realidade de negócio ainda rendeu amigas e parceiras de negócio de quem nunca mais vou me afastar, tenho certeza.
O clima hoje cedo foi igualzinho. Depois que cada uma se apresentou, a conversa rolou solta. Mil contatos. Mil abraços. E quando chegou a hora da premiação, as selecionadas eram tão incríveis que todo mundo aplaudiu e torceu.
Débora de Angelo, de 19 anos, e uma amiga abriram uma startup que está criando um app para ajudar pessoas cegas a se locomover pelas ruas de São Paulo. O app localiza a pessoa no transporte público e nas ruas, ajudando-as a atravessar sem auxílio. Tudo porque as duas ouviram a história de um colega que leva todos os dias o dobro do tempo delas para chegar à faculdade.
Natália Pereira criou a Maya, uma empresa que fabrica lingeries especiais para mulheres grávidas e em fase de amamentação, com todos os reforços necessários e lindas de morrer. Um negócio de 7 meses que já está super estruturado e é obviamente promissor.
E a grande premiada foi Michelle Fernandes, da Boutique de Krioula, que produz há 5 anos turbantes, brincos, sandálias e acessórios que valorizam a autoestima de mulheres negras. De sua loja virtual, ela vende para todo o Brasil as peças coloridas, muitas delas criadas com tecidos africanos. A empresa é o reflexo de sua vontade de existir em um mundo ao qual ela nunca se sentiu pertencente, desejo que ela também identificou em tantas outras mulheres negras da periferia.
Se a Pólen Livros existe, é porque há quase dez anos faço parte desse movimento. E cada encontro desses é mais uma prova de que essa força move o mundo na forma de negócios cada vez mais estruturados, muitos risos e lágrimas, e a vontade diária de fazer amor, não guerra.

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