O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

As meninas do jardim: Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro

Fiz esses contos com intenção de “traduzir” para a linguagem mitológica alguns aspectos da vida real da mulher entrevistada no nosso livro O feminino e o sagrado: mulheres na jornada do herói.
Então, para esclarecer os que ainda não leram o livro e relembrar a quem leu, antes do conto há um pouco da biografia da pessoa a quem se refere.

Nesse ultimo post dessa série, tratamos de nós duas e de como foi o processo de escrever esse livro. Este é o único conto de fadas que foi publicado no livro e a única ilustração que não consta dele.

Este livro começou a ser criado em janeiro de 2006 e terminou em setembro de 2009. Foi escrito por Cristina, que é psicóloga, divorciada, mãe de uma filha, e por Beatriz, arquiteta, casada, mãe de dois filhos.
As duas se conheceram numa aula de dança e, sabe‑se lá por quê, começaram a falar dos livros que liam na infância. Esboçaram um rastro de livros que as marcaram, até chegar onde estavam naquele momento: estudando Joseph Campbell, mitologia e o feminino. Uma coisa leva a outra, e dentro de pouco tempo elas estavam pesquisando, entrevistando, e por fim escrevendo esse livro juntas.
Mas, como todas, essa Jornada não foi muito fácil. Num estranho espelhamento, nesses três anos as duas passaram por situações similares: suas filhas saíram de casa, ambas se mudaram, faleceu respectivamente a mãe de uma e o pai da outra, a curiosidade e o entusiasmo criativo foi entremeado por temporadas de sofrimento, vazio e duvidas. Por fim, o livro saiu de suas mãos e se lançou ao mundo.
Essa história de fadas trata disso, além de reproduzir e ampliar um sonho que a Cristina teve há muitos anos atrás – sonho que surpreendentemente uma das entrevistadas, a Neiva, também teve.
Então, essa historia é também um sonho (sonhado e realizado), que não pertence a apenas uma mulher, mas a todas aquelas que saibam que, em algum lugar, existe um belo jardim de hera com um nicho reservado para sí.

Muito tempo atrás, numa estrela distante, existia um jardim circular rodeado por um muro coberto de hera. Incrustadas nesse muro, pequenas grutas; e, em cada uma delas, uma mulher cercada de símbolos sagrados, como cálices, tridentes, incensos, velas, flores, tambores, conchas…
No centro do jardim, uma pessoa que visitou o lugar disse que havia uma fonte; outra afirma que havia um minarete.
Certa noite, uma menina loira descobriu o jardim e ficou tão impressionada que foi de gruta em gruta perguntando: “Quem é você? Como chegou aqui? Me conta sua história?”
Quando voltou à Terra, a garota trouxe do jardim, sem perceber, um gênio feminino, ou seja, uma gênia. Essa gênia tinha a missão de divulgar o jardim, que andava meio esquecido. Ela deve ter pensado que aquela menina loira, exagerada e expansiva como era, poderia ajuda‑la.
Uma amiga da loira, uma menina morena que costuma ficar distraída do que chamam de mundo real, conseguiu ver a gênia: “Olhe, tem uma coisa no seu ombro esquerdo! Epa, sumiu! Mas deixou uma cartinha, veja!” Era um folheto com a ilustração de uma mulher em uma gruta coberta de hera. Embaixo da ilustração estava escrito: “Quem são essas mulheres? Que histórias podem nos contar?”
As meninas acharam o desenho lindo, e brincaram de gruta e jardim. E talvez tudo não tivessem passado disso se a gênia não tivesse deixado outro preesente: uma caixinha de música. Na tampa, uma colorida pintura mostrava todo o Jardim de Hera. Dentro da caixa, havia apenas hastes vazias que giravam toda vez que a tampa era erguida e a música executada, acompanhando uma voz que repetia: “Procurem as bailarinas! Coloquem uma bailarina em cada haste vazia!”
“O mundo anda cheio de mágica, ultimamente!”, as meninas exclamaram, felizes. Elas ainda não sabiam disso, mas, quando aceitaram a caixinha, a missão da gênia passou a ser a missão delas também.
E saíram pelo mundo afora buscando bailarinas. Primeiro perguntaram aos amigos se conheciam alguma, depois puseram um anúncio no jornal: “Procuram‑se bailarinas de caixinha de música”.
Logo descobriram que a própria caixa as ajudaria. Conforme caminhavam por aí com a tampa levantada, a música variava, ficando mais rápida e alta quando se aproximavam de alguma moita onde dormia uma bailarina ou de um rio onde outra se banhava. As meninas começaram a preencher as hastes com elas, e a vida das duas foi ficando tão colorida e bonita quanto a própria caixinha.
Mas todo aquele barulho despertou um elemental adormecido dentro da caixa, que ficou bravo e resmungou: “Que barulheira! Essas meninas estão querendo confusão? Então eu vou ajudar”. E resolveu virar pesadelo‑de‑bailarina,
assoprando sugestões e provocando encrencas.
Assim, certa manhã a bailarina esverdeada acordou de mau humor e cochichou para outra: “Essas meninas estão achando que o mundo mágico é feito só de prazer e divertimento”.
“É mesmo”, concordou a bailarina castanha, “E, além de brincar de mágica, elas brincam com aquelas bonecas que andam e falam”.
“Eu também gostaria de ter uma boneca dessas para mim…”, disse a primeira. “Ou é a boneca que vai ter você?”, zombou a outra.
No final das contas, a bailarina esverdeada acabou fugindo com a boneca da morena, e a bailarina castanha com a da loira. Mas todas foram morar ali por perto mesmo.
Dias depois, a bailarina dourada reclamou: “Isto aqui está ficando muito apertado”.
“Vai dizer que você quer uma caixa só para você?!”, perguntou a bailarina prateada.
“Só queria morar numa caixa espaçosa e confortável, caramba. Por acaso as meninas não moram em casas grandes?”, replicou.
“É verdade…”
Então, a bailarina dourada roubou a casa da loira, e a bailarina prateada roubou a casa da morena, e as duas meninas tiveram de inventar outro lugar para morar.
Pouco tempo depois, a bailarina branca resmungou: “Quando se cansam de procurar bailarinas, as meninas podem descansar porque têm mãe e pai que cuidam delas”.
“Eu também gostaria de ter uma família em vez de ficar aqui dançando o tempo todo”, disse a bailarina preta.
“E por que não? Vamos arrumar uma família e cair fora!”, disse a bailarina branca.
“Mas como?”, perguntou a bailarina preta. “Fácil, vamos pegar a mãe da loira e o pai da morena, e eles vão cuidar de nós”.
Dito e feito: as duas se foram com os parentes das garotas, deixando um bilhetinho explicando que, de agora em diante, morariam na montanha azulada.
As meninas ficaram desoladas com essa grande perda, sem saber se deveriam acreditar no bilhete. Afinal, muitos diziam que a tal montanha azulada era apenas uma lenda. E a elas só restou continuar procurando as bailarinas que faltavam.
A música da caixinha e a colorida pintura da tampa mostrando o Jardim de Hera foram estímulos que as levaram cada vez mais longe. Apenas no dia em que colocaram a última bailarina na última haste é que perceberam como estavam distantes da sua aldeia. Tão distantes que, no fim do horizonte, viram uma forma triangular e azulada, diferente das outras.
“Tem que ser a tal montanha! Então existe mesmo e fica aqui!”, disse uma. “Mas onde é aqui? Onde é que estamos?”, perguntou a outra.
Olharam em volta. Estavam na encosta de um morro onde o caminho se interrompia. O único jeito de seguir em frente era passar por um assustador abismo sob uma ponte feita de cordas, tão frágil que talvez não suportasse o peso das duas.
Elas pensaram em voltar para a aldeia, mas, sem que tivessem aberto a tampa, a caixa de música começou a tocar sua melodia mais rápido e alto do que nunca, com um rufar de tambores que ecoava por todo o vale.
“Bom, então esta é uma situação de ‘ou a gente vai ou a gente vai’”, exclamou a loira. “Temos que continuar!”
E começaram a caminhar sobre a ponte.
Estavam bem no meio quando ouviram: nheeeec.
A corda que estava amarrada na pedra do outro lado arrebentou. A ponte balançou e ficou presa por um fio. As meninas não podiam continuar nem ficar paradas no meio da ponte, que corria o risco de despencar.
“Vamos nos livrar de todo o peso!”, exclamou a morena.
Jogaram as mochilas e os livros no abismo. Jogaram fora tudo, menos a preciosa caixinha de música, que não queriam perder também. Conseguiram dar mais alguns passos, mas a ponte oscilou de novo, perigosamente. Perto, perto demais, estava a montanha azulada…
Foi então que a gênia do jardim interferiu pela última vez. Ela passou, vruuuum, disfarçada de vento, arrancou a caixinha das mãos das meninas e a lançou no abismo.
Como se estivesse esperando por isso, de repente a ponte estabilizou e as duas chegaram à outra margem. Suspiraram aliviadas, felizes por terem sobrevivido. Mas e a caixinha?
Olharam para o abismo, para procura‑la – e cadê o abismo? Tinha desaparecido, porque quando a caixinha bateu no chão a colorida pintura de sua tampa desprendeu‑se, criou vida e cresceu até ocupar toda a paisagem!
Então, agora não mais na estrela distante, mas bem ali, acessível a todos, estava o lindo Jardim de Hera e, dentro das grutas, com símbolos sagrados – cálices, tridentes, incensos, velas, flores, tambores, conchas –, todas as bailarinas, inclusive as que haviam fugido, agora do seu verdadeiro tamanho, grandes mulheres que eram.
E, no centro do jardim, elas viram uma menina ruiva percorrer as grutas uma a uma, perguntando a cada mulher:
“Quem é você? Como chegou aqui? Me conta sua história?”

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