O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

A grande Mãe – parte 3


As descobertas arqueológicas feitas durante o século XX, com a entrada de arqueólogas e outras especialistas mulheres nesse campo de estudo e com o desenvolvimento de tecnologias mais avançadas, vem corroborando a hipótese de que a crença na Grande Mãe foi a primeira vivência religiosa a existir para vários povos em diferentes regiões do planeta. Muitos desses achados trazem fortes evidências de ter havido variadas culturas baseadas na adoração primordial de uma deidade feminina, bem antes da imposição da crença nos deuses masculinos e da cultura patriarcal.

E isso especialmente entre povos de origem agrária. Como diz Joseph Campbell: “… onde quer que a agricultura tenha se tornado a principal fonte de alimento do povo, a Deusa e o feminino são dominantes”.
Evidências arqueológicas atuais provam que a religião da Deusa existiu e floresceu no Oriente Próximo e Médio por milhares de anos antes da chegada do patriarcal hebreu Abraão, primeiro profeta da divindade masculina Yahweh. Também foram descobertos, especialmente após o trabalho pioneiro da arqueóloga Marija Gimbutas, indícios contundentes da existência de uma religião centrada na Deusa, em todo território europeu antes que as civilizações patriarcais tomassem conta do continente trazendo seu panteão de deuses. Foram achado também registros sobre uma Grande Deusa Mãe ancestral no Egito, África, Austrália e China.

Vamos observar várias características dessa Grande Mãe em inúmeras outras deusas posteriores, como se elas fossem desdobramentos dessa divindade feminina ancestral. É uma única deusa e ao mesmo tempo muitas, com diferentes nomes e formas, responsáveis por variados aspectos da vida, numa visão ao mesmo tempo monoteísta e politeísta.

Como vem se provando, por um grande espaço de tempo da história humana, esse culto a Grande Deusa predominou em variadas regiões do planeta, mas foi implacavelmente combatido, especialmente por povos que professavam religiões monoteístas masculinas e que conquistaram os povos que professavam a crença nessa deidade feminina. Esses conquistadores vinham normalmente de tribos guerreiras nômades, que dominavam as artes da guerra e a feitura de armas e conseguiram dominar povos mais pacíficos de cultura agrária. Não foi uma conquista fácil como a princípio parece e levou muitos séculos, pois muito comumente esses povos de cultura agrária tinham uma civilização muito mais desenvolvida e sofisticada que a dos conquistadores. Então a cultura patriarcal foi se estabelecendo lentamente, porém de forma rígida, violenta e massiva. O patriarcado, com suas crenças e normas se fortaleceu incrivelmente, especialmente na Europa, quando o cristianismo canônico se tornou a religião oficial do Império Romano no ano de 326 dc. Durante os próximos séculos se estendeu por evangelização, conversão ou força por todo o continente.

Com a extinção definitiva dos cultos da Deusa e das Deusas nos países cristianizados e a consequente perseguição e difamação dos valores sagrados femininos, somente fragmentos da sua antiga adoração permaneceram ocultos/disfarçados nas crenças populares, nos costumes folclóricos, nos contos de fadas, na literatura.
E essa dominação do Divino unicamente masculino e o combate a visões que consideravam a existência de divindades femininas se estendeu depois para a América e parte da África, conquistadas por europeus.

Trechos do livro O LEGADO DAS DEUSAS 2

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