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A busca pelas heroínas – parte 3: as histórias de vida

2. As Histórias de Vida 
Fomos escutar suas histórias de vida contadas por elas mesmas. Fizemos longas entrevistas, de fato foram mais conversas que entrevistas, onde pedíamos que contassem como tinham chegado onde estavam, qual o caminho percorrido por elas, que circunstâncias as tinham levado até ali, qual a jornada realizada para chegarem a ser pessoa que são. 

E porque buscar histórias de vida? 

Em primeiro lugar a identidade de uma pessoa está totalmente amalgamada à sua história de vida. Conhecer a história da pessoa, suas escolhas, dificuldades, dúvidas, amplia, enriquece e matiza a visão que temos dela. Várias facetas são reveladas. Conhecemos melhor a pessoa ao conhecer sua história. E também através da história conhecemos o percurso da construção dessa identidade. 
A jornada feita para o mais profundo e autêntico de si mesmo é expressa na história de vida. Seguindo a metáfora de Hillman vemos como “a semente do carvalho transformou-se em carvalho”. Assim como cada pessoa é única, cada história é única e, de certa forma, mostra como a vida “forjou” aquela identidade e ao mesmo tempo foi “forjada” por ela. 

Em segundo lugar, a história de uma vida contada pela própria pessoa, para alguém que realmente a escute, pode trazer uma alma á tona e essa era a nossa busca. Escutamos tanto os fatos objetivos que elas escolheram contar, como a maneira que eles foram vividos subjetivamente. São as versões delas, são reconstruções de sua memória para suas histórias de vida. Ao escolher os fatos a serem contados, as dificuldades vividas, os sentimentos e emoções experimentados, o significado da vida que foi vivida é, de certa forma, reconstruído. 
Como diz Rachel Naomi Remen, em seu livro “Histórias que curam – conversas sábias ao pé do fogão”: As histórias são a experiência de alguém sobre os acontecimentos de sua vida, e não os acontecimentos em si… nós os vemos (os acontecimentos) de nossa maneira única, e a história que contamos tem muito de nós. A verdade é altamente subjetiva”.
 
Indo além, o relato de sua história de vida feita pela própria pessoa, a expressa de alguma forma. Em cada fala (na escolha das palavras, na construção das frases, no uso de figuras de linguagem, de metáforas, de expressões), quem conta sua história está presente. As histórias nos trazem um pouco do sabor, da voz, do ritmo, da energia daquela pessoa que a viveu. E são essas histórias que nos tocam, que ressoam, que permitem o verdadeiro encontro humano que nos aquece o coração. 

Em terceiro lugar histórias de vida nos inspiram a fazer o nosso próprio caminho. Assombrosas, assustadoras e maravilhosas como podem ser as historias (e a de nossas entrevistadas o são) elas tem o poder de provocar mudanças para quem as prova de verdade. Elas nos confortam quando vemos que pedras, obstáculos, dúvidas, medos, recuos, a sensação de estar perdido, faz parte do caminhar. Mitigam a solidão do processo, pois sentimos que temos companhia, temos companheiros. Elas nos fazem rir, chorar, pensar, refletir. 
Voltando a Dra. Remen: “Paramos de contar histórias quando começamos a não mais dispor de tempo, do tempo para parar, refletir, maravilhar-se …E quando não temos tempo para ouvir as histórias uns dos outros, procuramos especialistas para nos ensinar a viver”. 

Uma história de vida é uma entidade viva que pode nos ajudar a viver. É um compartilhar que nos fortalece e nos humaniza. As histórias de vida de nossas entrevistadas e todo o trabalho de três anos com elas são a matéria prima essencial com que foi construído esse livro. 

 TRECHO DO LIVRO “O FEMININO E O SAGRADO – MULHERES NA JORNADA DO HERÓI”, de Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro, editora Ágora, 2010

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