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A princesa, o sapo e o erro que pode ser acerto num conto de fada by Joseph Campbell

O início do  conto de fadas A princesa e o sapo começa com um erro… que no final foi um grande acerto! Mais abaixo Campbell fala do erro como podendo ser uma nascente profunda e o “ato inicial de um destino”.

“ “Eis que um dia aconteceu de a bola dourada da princesa não cair na mãozinha estendida, passar por ela, tocar o chão e rolar diretamente para dentro da água. A princesa seguiu a bola com os olhos, mas esta desapareceu; e a fonte era tão profunda, mas tão profunda, que não era possível ver-lhe o fundo.

E a princesinha começou a chorar, seu choro tornou-se cada vez mais alto e ela não encontrava consolo. Enquanto se lamentava dessa forma, eis que ouviu alguém que a ela se dirigia:

-‘Que está havendo, princesa? Estais chorando tanto que até uma pedra sentiria pena de vós’.

Ela olhou em volta para ver de onde vinha a voz e deparou com um sapo cuja gorda e feia cabeça estava para fora da água.

– ‘Oh! é você, velho Morador da Água’, disse ela. ‘Estou chorando por causa da minha bola dourada, que caiu na fonte.’

– ‘Acalmai-vos, não choreis’, respondeu o sapo. -‘Certamente posso ajudar-vos. Mas o que me dareis se eu recuperar vosso brinquedo?’

– ‘O que você quiser, caro sapo’, disse ela; ‘minhas roupas, minhas pérolas e jóias e até a coroa de ouro que uso.’

O sapo replicou: – ‘Vossas roupas, vossas pérolas e jóias e vossa coroa de ouro eu não quero; mas se cuidardes de mim e me fizerdes vossa companhia e parceiro de folguedos, se me deixardes sentar-me ao vosso lado à vossa pequena mesa, comer do vosso pequeno prato de ouro, beber de vossa pequena xícara, dormir em vossa pequena cama; se me prometerdes isso, mergulharei já e trarei vossa bola dourada’.

-‘Está certo’, disse ela, ‘prometo o que você quiser, desde que você me traga a bola de volta.’ Mas ela pensou: ‘Como tagarela esse simples sapo! Aí está ele na água, com sua própria espécie, e jamais poderá ser companhia para um ser humano’.

Assim que obteve a promessa da princesinha, o sapo virou a cabeça, mergulhou e, pouco depois, voltou; trazia a bola na boca e atirou-a na grama. A princesa ficou radiante quando viu seu brinquedo querido. Ela o pegou e se afastou.

– ‘Esperai, esperai’, disse o sapo, ‘levai-me convosco; não posso correr como vós.’

Mas de que adiantou, embora coaxasse atrás dela o mais alto que podia? Ela não lhe deu a mínima atenção, dirigiu-se apressadamente para o palácio e logo havia se esquecido completamente do pobre sapo — que deve ter pulado de volta para a sua fonte.”‘

Eis um exemplo de um dos modos pelos quais a aventura pode começar. Um erro — aparentemente um mero acaso — revela um mundo insuspeito, e o indivíduo entra numa relação com forças que não são plenamente compreendidas. Como Freud demonstrou, os erros não são um mero acaso; são, antes, resultado de desejos e conflitos reprimidos. São ondulações na superfície da vida, produzidas por nascentes inesperadas. E essas nascentes podem ser muito profundas — tão profundas quanto a própria alma.

O erro pode equivaler ao ato inicial de um destino. E assim, ao que parece, no conto de fadas descrito, o desaparecimento da bola é o primeiro indício de que algo sucederá à princesa, sendo o sapo o segundo, e a promessa não cumprida, o terceiro.

Como manifestação preliminar dos poderes que estão entrando em jogo, o sapo, que surgiu como por milagre, pode ser considerado o “arauto”; a crise do seu aparecimento é o “chamado da aventura”.”

Trecho de O herói de mil faces, de Joseph Campbell, ed Palas Athena

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