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O mito de Sekhmet, a deusa leoa


Sekhmet, que significa poderosa, é uma das mais antigas divindades egípcias, conhecida como Senhora do Lugar do Começo do Tempo e Deusa da Ordem Divina. Tem a cabeça de leoa – símbolo de força e poder de destruição de inimigos – e o corpo de mulher. Traz no alto da cabeça o disco solar, tem a juba cheia de chamas e seu rosto brilha como o Sol. Sekhmet é a feroz guardiã do Deserto Ocidental do Egito: o vento quente que vem do deserto é a sua respiração; quando ela o varre com sua cauda, ele fica envolto em poeira.
Conta o mito que Rá, o Deus-Sol, assumiu a forma de um homem e se tornou o primeiro faraó. Regeu o Egito por milhares de anos, assegurando fartas colheitas e grande prosperidade ao povo. Mas, com o passar dos tempos, Rá envelheceu e os humanos começaram a não respeitá-lo mais e a escarnecer dele. Também não honravam mais os outros deuses, e os sacerdotes conspiravam para roubar seus poderes e destruí-los. Irado, Rá resolveu se reunir com todos os deuses para decidirem como tratar essa insolência, essa audácia da humanidade.
Juntos decidiram que Rá usaria seu olhar poderoso e terrível sobre os humanos, e ele assim o fez. De seu olhar feroz corporificou-se a poderosa Sekhmet. E ela, como uma leoa selvagem, perseguiu a humanidade, deliciando-se com a caça dos homens ingratos e arrogantes, saciando sua sede com todo o sangue que derramava. Quanto mais bebia sangue, mais sedenta de sangue se tornava. A carnificina foi tão grande e sua ferocidade tão intensa que os deuses, temendo que ela destruísse toda a humanidade, resolveram aplacar sua fúria. Rá ordenou que mensageiros fossem buscar uma pedra vermelha que existia na ilha que fica no rio Nilo, chamada de Elefantina. Com essa pedra se fazia uma droga poderosa que acalmava a mente. Quando os mensageiros voltaram, Rá pediu que misturassem a pedra com cerveja de cevada, enchessem 7 mil jarras com a bebida e a jogassem no campo por onde Sekhmet passava, encharcando o chão. Tendo a cerveja ficado vermelha, a Deusa achou que era sangue e a bebeu. Com isso se acalmou, inclusive dormiu, parou de matar os homens e a humanidade foi salva.
Rá, então, determinou que daí por diante se tornasse um costume ritual preparar cerveja vermelha para a Deusa em todas as festas do ano e que a preparação de tais bebidas fosse confiada às suas sacerdotisas. Sekhmet não é cruel, nem má; seu caráter intolerante estava intimamente ligado à falta do espírito de lei e ordem nos homens – o que lhe causava uma fúria destrutiva e punitiva. É chamada também de A Única que Ama Maat – a Deusa egípcia da Ordem, da Justiça e da Verdade. É, ao mesmo tempo, a preservadora da ordem e a Deusa da Guerra. Ela não iniciava nem provocava conflitos, porém, quando a ordem divina estava em risco e os outros deuses a invocavam, ela respondia com selvageria sem hesitação, como uma leoa protegendo seus filhotes.
Trecho do livro “O legado das deusas”

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