O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Menstruação: precisamos falar sobre isso

 

Pensa-se que o primeiro tabu observado pelo homem foi em relação a menstruação.

Tabu tem 3 significados: impuro, sagrado e reservado. Em algumas culturas tradicionais mulheres menstruadas não podiam tocar na manteiga, no vinho e na carne para não estraga-las; em outras, se encostassem no peixes ou no milho todos eles desapareceriam coletivamente.

Se um homem visitasse uma mulher menstruada seus ossos poderiam amolecer, sua sabedoria sumiria, etc. Para muitos povos primitivos a menstruação era uma doença, uma possessão por maus espíritos, um problema, uma impureza.

A palavra menstruação vem de mens, que significa lua; menstruação = mudança de lua, ciclo. Tudo a ver mesmo com as mulheres, que tinham a vida regulada pelos ciclos naturais ratificados pelos tabus e costumes.

De forma geral, em muitas tradições as mulheres menstruadas precisavam ficar sozinhas num cômodo, cabana, no mato ou outro local isolado, pois desastres e doenças poderiam acontecer se elas não se afastassem da aldeia.

Parece horrível, mas será que isso era assim tão ruim? Os antropólogos não pensaram sobre os efeitos que a reclusão da menstruação tinha sobre as mulheres. Hoje há uma hipótese de que elas se segregavam por iniciativa própria e apreciavam esses períodos, quando podiam não transar, não trabalhar, ficar cuidando só de si mesmas.

Era um equivalente às cerimonias de iniciação masculina, apenas não legitimado como os dos homens (com exceção de algumas culturas onde até havia rituais, mas isso fica para outro post onde vou trazer o lado sagrado do tabu da menstruação).

O que isso tudo tem a ver com nossa vida de hoje? Bom, hoje não damos bola para esses períodos mais que o necessário, talvez ainda na tentativa de nos igualarmos aos homens ou porque no fundo ou declaradamente concordamos com os primitivos de que a menstruação é uma doença, um aborrecimento, uma sujeira, algo inútil e que atrapalha a vida. De novo, será?

Do ponto de vista biológico, há controvérsias. Do ponto de vista mitológico, tabus e mitos representam realidades psíquicas, na maioria inconscientes. No caso, o tabu do isolamento talvez não represente apenas o medo masculino do sangue feminino mas também uma necessidade das próprias mulheres.

Assim, na lua escura que pode nos afetar com irritabilidade, algumas dores, inercia ou inquietação, permitir-se um tempo de introversão, afastamento, diminuição do ritmo e respeito ao ciclo natural talvez seja muito regenerativo para corpo e alma, harmonizando a atitude consciente com a inconsciente.

Os processos físicos e psíquicos estão tão emaranhados que é difícil saber o que causa e o que é efeito, e merecem que sejamos mais experimentais em relação a isso…

E, principalmente, precisamos falar sobre isso!

As ilustrações são da artista plástica Juliaro, que trabalha com sangue menstrual e com a benção do útero, site: http://palomailustrada.blogspot.com.br/p/contacto.html

A maioria das informações desse post vem do livro Mistérios da Mulher, da medica e analista junguiana Esther Harding

 

 

 

 

 

 

 

Para os homens as mudanças cíclicas são muito incompreensíveis e em seu empenho para escapar da dominação patriarcal as mulheres descuidaram-se dos efeitos de seu próprio ritmo e tentaram assemelhar-se aos homens ao máximo. Esther pg 107

 

 

Essas ideias estão por todo lado: Moises, Zoroastro (persia), Manu (indu)

 

Mas há o lado

Istar menstruava na época da lua cheia, no dia de sabattu. É o dia de Istar -“dia do mal”- quando se deve descansar. É o precursor do Sabá, o descanso judaico. No inicio era só no 1 dia de lua cheia, depois passou a ser 1 vez por semana. Nenhum alimento podia ser cozido, não se podia andar de carruagem, etc.

 

Por que tantos tabus? Pq a menstruação das mulheres era associada ao cio dos animais. E tinham medo do poder sexual intensificado; a femea ficava mais perigosa nessa época. Ou seja, o desejo indomado do homem é a questão e a ameaça para as mulheres. A menstruação para o homem evocava o medo do poder sexual feminino sobre ele (pg 107). O que o primitivo não entende ele teme e cria tabus e regulamentos para tentar dominar o medo.

 

 Bia, acho que essa explicação não faz muito sentido. Medo do mistério do corpo da mulher como um todo e da sua atração por ela, claro, mas especificamente da menstruação não. Primeiro pq não dá para associar menstruação e cio pq as femeas não humanas não menstruam, não sangram. E o equivalente ao cio dos outros animais é a época em que a mulher está ovulando, não quando está menstruando. Acho que o maior tabu tem a ver com o sangue que está ligado a vida e a morte e o fato da mulher sangrar todo mês e não morrer. Acho que o que a Monika diz abaixo faz mais sentido como a causa dos tabus.

Rubra força – von Koss – pág.43 em diante

Como manifestação do poder de dar vida, o sangue que flui pela vagina da mulher é portador de intensa potencialidade e por isso atraiu para si atitudes de reverência e temor. Para lidar com essas emoções provocadas por esse sangue que flui sem vir de ferimento, os grupos primitivos estabeleceram regras de conduta sobre como lidar com isso e que variavam de grupo para grupo. Esse conjunto de regras chamamos de tabu menstrual.

Mulheres que vivem juntas tendem rapidamente a menstruar no mesmo período. HIPÓTESE – Isso impedia que os homens alfa de monopolizarem as fêmeas como faziam os grandes primatas, seja monogamicamente seja em haréns – era uma forma de regularizar o sexo. Com todas mulheres ovulando ao mesmo tempo, todos os machos poderiam ter acesso a uma parceira. E também pode ter levado a partos coletivos, uma vantagem para a sobrevivência.

 

Rubra força – pág. 50

O perigo representado pelo contato com as mulheres menstruantes era atribuído ao   poder sagrado do qual o sangue era portador, poder esse de um tipo que é mais perigoso por estar vinculado a lua e enraizado na natureza.

 

Mas é bom lembrar que os costumes antigos mtas vezes eram instituídos para combater perigos psicológicos reais. Nesse caso, proteção contra a excessiva dominação da natureza instintiva humana.

 

 

A circuncisão e outros rituais de sangue mtas vezes eram parte da iniciação masculina e na adolescência em varias culturas os meninos tb eram colocados sob tabus. O sangue em si era poderoso e magico para os primitivos. A semelhança das iniciações é tão gde que não pode ser acidental. Por ex, os rapazes índios americanos ficavam (geralmente uma vez na vida) longos períodos isolados fazendo jejuns e purificações para obter sonhos e visões iniciatórias, através dos quais entravam em contato com o inconsciente, ouviam a voz da natureza sagrada, e libertavam-se da dependência infantil.

 

Acho que isso aconteceu a partir da expansão do patriarcado. (Dizem alguns que é porque a mulher está mais perto da natureza em si mesma, mas eu, Bia, acho que simplesmente não legitimavam as experiencias femininas nesse sentido)

 

Rubra força – pag. 50

Existiam grupos primitivos onde se honrava o sangue menstrual e as mulheres menstruadas eram consideradas em estado liminar com acesso aos mundos invisíveis e deveriam usar esses períodos para buscar em seus sonhos e intuições para ajudar seus grupos. E pela sincronização da menstruação elas se retiravam do convívio social para a “tenda vermelha” ou “casa da lua” como eram chamadas as cabanas de menstruação, estabelecendo a sacralidade e potencialidade do evento.

– pág. 64 /povos nativos-americanos. Os mais velhos diziam que as mulheres “no tempo da lua” estavam em um estado especial de poder.

 

 

(Em busca da feminilidade perdida pg260 em diante) (Rubra força – págs 48/49): RITUAL

Mas na Velha Europa, desde 6000 AC há traços de um festival feito todo ano. É a Tesmoforia, o festival da semente sagrada. O campo pertencia à mulher, e ela o fertilizava assim. Começava com nove dias de ritos de purificação, só com as mulheres que já menstruavam ou que já tinham passado do período fértil. Nesses dias preliminares elas ficavam afastadas dos homens, dormindo sós. Comiam alho para repelir os homens e preparavam uma ceia com alho para Hecate em pilhas de pedra nas estradas. Cada mulher fazia uma cabaninha com galhos de figueiras silvestre, arvore que para os gregos é entrada para o mundo subterrâneo. Elas se reuniam com as outras nos fins da tarde e bebiam sucos de uma planta selecionada para isso, grama ligulada (há varias espécies). Em campos com essas plantas de flores azuis, brancas e vermelhas que tem fama de precipitar as regras é onde Hera vem passar seu período menstrual. No festival, as mulheres também dormem sobre essa planta nas cabanas. Desde a primeira aparição do sangue colocavam faixas de tecido vermelho no braço mostrando que já estão santificadas para o festival. No primeiro dia do festival, apenas mulheres se reuniam no campo sagrado. Nem cães machos podem ir. Elas guardavam a área com facas, espetos e tochas. As vezes, mulheres com faces pintadas com seu sangue castravam homens que as espionavam. Levavam para lá porcas selecionadas e as matavam, honravam a Serpente com esse sacrifício e a comiam. Faziam jejum no segundo dia e faziam imagens de pênis ou de serpentes com pastas de cereais. Sentavam-se no chão e deixavam seu sangue fluir para o campo, revitalizando-o com o poder seu e da Serpente. No anoitecer quebravam o jejum, brincavam e riam com bolos em forma de vagina ou de meia lua. A noite, se juntavam em volta do fogo e conversavam não sobre preocupações domesticas, mas sobre suas visões, segredos, paixões, expunham rancores e ciúmes, zombavam, davam risada, gritavam. A noite voltavam para as cabanas mas colocavam planta que banhada com o sangue repele a Serpente na entrada, porque sabiam que o contato intimo com ela é uma faca de dois gumes, e assim se protegiam durante o sono qdo não estão alertas, ao mesmo tempo rogando à Serpente que as protegesse da loucura e da possessão. No terceiro dia, elas acordavam cantando e é o Dia do Bom Nascimento. A Serpente afrouxou os limites da vida comum e agora partiu. Então as mulheres mais velhas e mais honradas se aproximavam do altar e falavam da partida da Serpente: – Somos deixadas com sua memória, diziam. Elas levavam para o altar cestas com sementes carnosas e as passavam para as mulheres, que tomavam um pouco e enterravam mais sementes no solo sagrado. Depois disso, as mulheres ficavam de pé e cantavam suavemente para a serpente, cujo nome era Ereshkigal na Sumeria. Estava encerrado o festival.

 

 

 

 

 

 

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