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Ritual ancestral de celebração da menstruação

Estamos habituadas a ver a menstruação como um aborrecimento, uma perda de sangue inútil, uma sujeira, um desconforto. Será mesmo? Em algumas culturas (poucas, mas há) tradicionais a menstruação era celebrada como algo fertilizador, purificador. Aqui está um belo ritual da Velha Europa que  ocorria anualmente desde 6000 AC. É estranho como essa celebração da menstruação pode ressoar forte em alguma coisa lá no fundo da gente, não é?

A Tesmoforia, o festival da Semente Sagrada, onde a mulher fertilizava os campos.

Feito apenas por mulheres que já menstruavam ou que já tinham passado do período fértil, começava com nove dias de ritos de purificação. Nesses dias preliminares elas ficavam afastadas dos homens, dormindo sós e comendo alho para repelir os homens.

No primeiro dia do festival, as mulheres preparavam uma ceia com alho para Hécate em pilhas de pedra colocadas nas estradas. Cada mulher fazia uma cabaninha com galhos de figueiras silvestres, arvore que para os gregos era a entrada para o mundo subterrâneo.

Nem cães machos podiam ir no campo sagrado: elas guardavam a área com facas, espetos e tochas. Chegou a acontecer que mulheres com faces pintadas com seu próoprio sangue castravam homens que as espionavam…

Elas levavam porcas selecionadas e as matavam, honrando a Serpente com esse sacrifício, e depois as comiam. Reuniam-se  nos fins da tarde e bebiam sucos de uma planta selecionada para isso, a grama ligulada (há varias espécies). Hera vem passar seu período menstrual em campos com essas plantas de flores azuis, brancas e vermelhas que tem fama de precipitar as regras.

Durante o festival as mulheres também dormiam nas cabanas sobre essa planta. Desde a primeira aparição do sangue elas colocavam faixas de tecido vermelho no braço mostrando que já estavam santificadas para o festival.

No segundo dia, elas jejuavam e faziam imagens de pênis ou de serpentes com pastas de cereais. Sentavam-se no chão e deixavam seu sangue fluir para o campo, revitalizando-o com o poder  da Serpente e do sangue da mulher. Ao anoitecer quebravam o jejum com bolos em forma de vagina ou de meia lua, brincavam e riam juntas.

A noite, juntavam-se em volta do fogo e conversavam, jamais sobre preocupações domesticas, mas sim sobre suas visões, segredos, paixões, expunham rancores e ciúmes, zombavam, davam risada, gritavam. Depois voltavam para as cabanas, mas colocavam a planta na entrada, que banhada com seu sangue repele a Serpente.

Elas sabiam que o contato intimo com a Serpente é uma faca de dois gumes e assim se protegiam durante o sono, ao mesmo tempo rogando à Serpente que as protegesse da loucura e da possessão.

No terceiro dia elas acordavam cantando, e era o Dia do Bom Nascimento. A Serpente havia afrouxado os limites da vida comum e agora havia partido. As mulheres mais velhas e mais honradas se aproximavam do altar e para a Serpente: – Somos deixadas com sua memória.

Elas levavam para o altar cestas com sementes carnosas e as passavam para as mulheres, que comiam um pouco e enterravam um pouco no solo sagrado.

Depois disso, as mulheres ficavam de pé e cantavam suavemente para a Serpente, cujo nome era Ereshkigal na Sumeria.

Estava encerrado o festival.

Esse ritual completo está no livro Em busca da feminilidade perdida, org de Connie Zweig

 

 

 

 

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