O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Vasilisa, um conto de fadas muito feminino

Adoro esse  conto russo que, ao narrar a maravilhosa jornada de uma garota, traz muitos aspectos positivos e negativos tanto da Grande Deusa como de das mulheres em geral. 

Inúmeros contos de fada tem origem em antigos cultos e crenças pagãs que tiveram que ficar clandestinos ou virar folclore por imposição da Igreja. Assim, por exemplo, as poderosas fadas da mitologia celta viraram pequeninas e delicadas entidades morando em flores… E a Grande Deusa virou bruxa em muitos casos como esse aqui.

Baba Yaga encarna o aspecto arcaico e duplo bom/mal da Grande Deusa que conduz o ser humano à própria essência. Aqui ela faz a iniciação da Vasilisa… Mas não quero contar mais para você curtir melhor a bela história.

Fiz essa versão reduzida, baseada principalmente na de Clarissa Pinkola (Mulheres que correm com os lobos) mas também na de Marie Louise von Franz (O feminino nos contos de fadas). Se gostar, recomendo que leia uma das duas, completas e maravilhosas.   Semana que vem posto algumas dicas de interpretação desse conto, que verão que tem a ver com a vida de qualquer uma de nós.    Mas agora, divirta-se!

 

Era uma vez uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte. Ela chamou sua filha Vasilisa e disse:

— Essa boneca é para você, meu amor — e tirou uma bonequinha minúscula parecida com a própria Vasilisa, que usava botas vermelhas, avental branco, saia preta e colete bordado.

— Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte à boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. Essa é a minha bênção de mãe para você, querida.

E assim a mãe morreu.

A criança e o pai choraram muito. No entanto, tempos depois ele desposou uma viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o pai de Vasilisa não percebia. E tempos depois ele teve que partir para uma longa viagem.

Quando as três ficaram sozinhas com Vasilisa, elas a atormentavam, forçavam-na a fazer todo serviço da casa, mandavam-na cortar lenha. Elas a detestavam porque Vasilisa era muito bonita, tinha uma grande doçura, era sempre solícita e nunca se queixava, enquanto a madrasta e as duas filhas eram preguiçosas e justo o contrário da menina. Elas simplesmente não conseguiam suportar Vasilisa.

Então, fizeram um plano:

— Vamos combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasilisa entrar na floresta para ir pedir fogo para Baba Yaga, a bruxa. Quando ela chegar lá, com certeza Baba Yaga irá matá-la e comê-la.

Naquela noite, quando Vasilisa voltou para casa depois de catar lenha, a casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a madrasta.

— E agora? Como vamos cozinhar e iluminar as trevas?

–  É claro que não temos fogo, reclamou a madrasta. Eu não posso sair para o bosque porque estou velha. Minhas filhas não podem ir porque têm medo. Você é a única que pode entrar na floresta para encontrar Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo.

— Ah, está bem — respondeu Vasilisa inocente. — Vou fazer isso.

Entrou na floresta, e a medida que ela penetrava mais fundo ia ficando cada vez mais escura. Apavorada, ela enfiou a no bolso do avental para pegar a boneca que a mãe lhe havia dado. Só de tocar nela, já se sentia melhor.

Além disso, a  cada bifurcação, Vasilisa enfiava a mão no bolso e consultava a boneca. “Devo ir para a esquerda ou para direita?” A boneca respondia “Sim”, “Não”, “Para esse lado” ou “Para aquele lado”. E Vasilisa dava à boneca um pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da boneca.

De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho, e o sol apareceu. E, bem na hora em que estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro num cavalo negro passou trotando e imediatamente fez-se noite.

Finalmente ela chegou na casa de Baba Yaga.  A casa era rodeada por uma cerca feita de ossos humanos e caveiras com olhos enormes que refulgiam com um fogo interno. Duas tíbias eram a tranca da porta da frente e a fechadura eram dois maxilares com dentes afiados. A casa ficava em cima de enormes pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava sozinha de um lado para o outro, e às vezes girava como uma bailarina em transe.

Vasilisa consultou sua boneca. “É essa casa que procuramos?” E a boneca, a seu modo, respondeu: “Sim, é.” E antes que ela pudesse dar mais um passo, Baba Yaga no seu almofariz desceu sobre Vasilisa, aos gritos.

Baba Yaga era uma criatura temível. Ela viajava num almofariz que voava, e o tempo todo varria o rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há muito tempo. Seu queixo comprido era curvado para cima e seu longo nariz era curvado para baixo, de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Ela tinha um pequeno cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com sapos. Suas unhas eram grossas e tão compridas que ela não conseguia fechar a mão.

Vasilisa estava tão aterrorizada que se sentiu desmaiar. Mas resolveu encher-se de coragem. Já que ali estava, pelo menos ia tentar a sorte. Assim, aproximou-se da velha e disse:

– Olá, avozinha!

— O que você quer?

— Vovó, vim apanhar fogo — respondeu a menina, estremecendo. — As minhas irmãs mandaram-me vir ter contigo, para te pedir fogo.

— Ah, sssssei — retrucou Baba Yaga, rabugenta. — Conheço você e o seu pessoal. É muita imprudência deixar o fogo se apagar. E o que a fez pensar que eu lhe daria a chama?

— Porque eu estou pedindo — respondeu rápido Vasilisa depois de consultar a boneca.

— Você tem sorte — ronronou Baba Yaga. — Essa é a resposta certa. Mas só vou lhe dar o fogo se você fizer alguns trabalhos para mim. Se você não fizer… — E os olhos de Baba Yaga de repente se transformaram em brasas. — Se não fizer, minha filha, você morrerá.

E assim Baba Yaga entrou no casebre, deitou-se na cama e mandou que Vasilisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. Tinha comida suficiente para dez pessoas, e Baba Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha e um dedal de sopa para Vasilisa.

– Lave minha roupa, varra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho mofado do milho bom. Volto mais tarde para inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete.

Baba Yaga partiu voando no seu caldeirão, e anoiteceu novamente. Vasilisa voltou-se para a boneca assim que a Yaga se foi.

— O que vou fazer? Vou conseguir fazer tudo isso a tempo?

A boneca disse que sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasilisa deu algo de comer à boneca também e adormeceu. Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. À noite, Baba Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de Vasilisa:

— Você é uma menina de sorte.

Comeu horas a fio e deu ordens a Vasilisa para que no dia seguinte limpasse a casa, varresse o quintal e lavasse a roupa.

— E naquele monte— disse a Yaga, apontando para um enorme monte de estrume no quintal — há milhões de sementes de papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu?

— Meu Deus, como vou fazer isso? — exclamou Vasilisa, quase desmaiando.

— Não se preocupe, eu faço — sussurrou a boneca, no bolso.

Naquela noite, quando Baba Yaga roncava, Vasilisa bem que tentou  catar as sementes de papoula do meio do estrume.

— Dorme — disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. — Vai dar tudo certo.

Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo estava pronto.

— Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! — disse Baba Yaga, falando sarcástica pelo nariz.

Vasilisa ficou parada por perto.

— O que é que você está olhando? — perguntou Baba Yaga, de mau humor.

— Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? — perguntou Vasilisa.

— Pergunte — ordenou a Yaga —, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas antes do tempo.

Vasilisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.

— Ah — respondeu a Yaga,— Esse primeiro é o meu Dia.

— E o homem de vermelho no cavalo vermelho?

— Ah, esse é o meu Sol Nascente.

— E o homem de negro no cavalo negro?

— Ah, sim, esse é a minha Noite.

— Entendi — disse Vasilisa.

— Vamos, vamos, minha criança. Não quer me fazer mais perguntas? —sugeriu a Yaga, manhosa.

Vasilisa até queria perguntar sobre outras coisas, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e Vasilisa entendeu.

— Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa antes da hora.

— É — disse a Baba Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho —, você é muito ajuizada para a sua idade, menina. Como conseguiu ficar assim?

— Foi a bênção da minha mãe — disse Vasilisa.

— Bênção?! — guinchou Baba Yaga. — Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. — E foi empurrando Vasilisa para o lado de fora. — Mas olhe aqui! —

Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara.

— Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. – Esse é o seu fogo. Não fale mais nada. Só vá embora.

Vasilisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a saltar para cima e para baixo e Vasilisa entendeu. Simplesmente pegou o fogo e foi embora.

Ela voltou correndo para casa, seguindo as indicações da boneca no caminho. Era noite, e Vasilisa atravessou a floresta com a caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos olhos, do nariz e da boca. Ela sentia medo dessa luz espectral e pensou em jogá-la fora, mas a caveira falou com ela, dizendo: Não, prossiga!

Quando Vasilisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Quando viram que era Vasilisa correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extinguia.

Vasilisa entrou na casa, sentindo-se forte e vitoriosa por ter sobrevivido à perigosa jornada e por ter trazido o fogo. Mas a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, e as queimou inteirinhas por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.

De manhã, Vasilisa enterrou o crânio, fechou a casa e foi embora para a cidade onde sua história continua…

 

2 comentários

  1. Ana disse:

    Lindo dmaisss!!! Obrigada por postar

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