O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Se você tiver sorte, a bruxa Baba Yaga virá visita-la em seus sonhos

 

Por que ser visitada por uma bruxa é sorte? Bom, Baba Yaga, a mais poderosa e uma das mais antigas dos contos de fadas, tem muito da Grande Deusa – a que cria, forma, sustenta e termina a vida, trazendo ao ser humano a consciência de quem ele é de fato. Então, “ Peça conselhos a ela. Ela é a Mãe dos Tempos. Nada a surpreende”, diz Clarissa Pinkola Estés na interpretação do conto de fadas de Vasilisa.

Esse conto foi postado aqui duas semanas atrás e narra a jornada de uma jovem mulher que, usando a intuição, enfrenta Baba Yaga e é ajudada por ela. Trechos de “Mulheres que correm com os lobos” falando sobre isso:

 

Nesse drama de iniciação, Baba Yaga é a Mulher Selvagem sob o disfarce da bruxa. À semelhança do termo selvagem, o termo bruxa veio a ser compreendido como um pejorativo, mas antigamente ele era uma designação dada às benzedeiras tanto jovens quanto velhas, sendo que a palavra witch (bruxa, em inglês) deriva do termo wit, que significa sábio. Isso, antes que as religiões monoteístas suplantassem as antigas religiões da Mãe Selvagem.

De qualquer maneira, porém, a ogra, a bruxa, a natureza selvagem e quaisquer outras criaturas e aspectos que a cultura considera apavorantes nas psiques das mulheres são exatamente as bênçãos que elas mais precisam resgatar e trazer à superfície. 

Boa parte da literatura sobre o tema do poder das mulheres afirma que os homens têm medo desse poder. Sempre tenho vontade de protestar, “Pelo amor de Deus! São tantas às mulheres que têm, elas mesmas, medo do poder das mulheres.”

É que as antigas qualidades e forças femininas são imensas e causam espanto. É compreensível que, na primeira vez que se deparam pessoalmente com os Antigos Poderes Selvagens, tanto os homens quanto as mulheres lancem um olhar ansioso e dêem o fora; tudo o que se vê deles são patas que voam e rabos assustados.

Se quisermos que um dia os homens cheguem a aprender a suportar esse encontro, então sem sombra de dúvida as mulheres têm de aprender a suportá-lo. Se quisermos que os homens um dia cheguem a compreender as mulheres, elas próprias terão de lhes ensinar as configurações do feminino selvagem.

Com essa finalidade, a função de criação dos sonhos na psique traz a Yaga e todo o seu bando para dentro do quarto das mulheres à noite durante os sonhos. Se tivermos sorte, a Yaga deixará suas pegadas grandes e largas no tapete ao lado da nossa cama. Ela virá espionar aquelas que não a conhecem. Se estivermos atrasadas na nossa iniciação, ela se pergunta por que não vimos visitá-la e, para compensar, vem ela mesma nos visitar em sonhos noturnos.

(…) Baba Yaga é a mesma Mãe Nyx, a mãe do mundo, uma outra deusa da vida- morte-vida. A deusa da vida-morte-vida é sempre também uma deusa criadora. Ela cria, forma e sopra a vida. Ela está presente para receber a alma quando o alento se foi. Seguindo suas pegadas, tentamos aprender a deixar nascer o que deve nascer, quer todas as pessoas certas estejam ali, quer não. A natureza não pede licença.

Floresça e dê à luz sempre que tiver vontade. Como adultas, precisamos muito pouco de licença, mas, sim, de maior criação, de maior estímulo dos ciclos selvagens. Deixar morrer é o tema do final da história. Vasalisa aprendeu sua lição. Ela cai numa crise histérica quando a caveira faz arder as mulheres perversas? Não. O que deve morrer morre.

Como se toma uma decisão dessas? Sabe-se, simplesmente. La Que Sabé sabe.

Peça conselhos a ela. Ela é a Mãe dos Tempos. Nada a surpreende. Ela já viu tudo. Para a maioria das mulheres, deixar morrer não é contra sua natureza, é contra sua criação. Isso pode ser modificado. Todas nós sabemos no fundo de los ovários quando chegou a hora da vida, quando chegou a hora da morte. Podemos tentar nos enganar por vários motivos, mas sabemos.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *