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Heroínas do Brasil – Leolinda de Figueiredo Daltro

Leolinda de Figueiredo Daltro (1859 – 1935) educadora, feminista, indigenista, ativista, política

Leonilda nasceu na Bahia em 1859, mas viveu a maior parte da sua vida no Rio de Janeiro. Desempenhou um importantíssimo papel político como precursora do feminismo e do movimento em prol dos indígenas do Brasil. Era professora primária e teve 5 filhos que criou separada do marido, com a ajuda dos familiares.

Queria incorporar os índios à sociedade através da educação, apoiando uma escolarização laica, que fugisse totalmente dos padrões jesuítas ainda presentes no Brasil. Em 1896, sem auxílio governamental e contando apenas com ajuda de amigos e colaboradores simpatizantes da causa indígena, Leolinda começou a percorrer o interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, disseminando essa idéia. Para realizar este empreendimento, deixou seu cargo de professora, sua casa e filhos pequenos sob o cuidado da família. Seu objetivo era fundar uma escola na aldeia dos Xerente, localizada às margens do rio Tocantins. O projeto incomodou os dois pilares da elite brasileira à época: a Igreja e os proprietários de terra. O trabalho de Leolinda foi se tornando insustentável, mas a professora seguiu sua jornada até 1897, sendo exposta ao ridículo e ironizada em todas as cidades que passava, sendo chamada em Uberaba onde passou de Mulher do Diabo.

Continuou a luta pela causa indígena no Rio de Janeiro, onde fundou o Grêmio Patriótico Leonilda Daltro, com a finalidade de defender a alfabetização dos índios sem a interferência da igreja. Segundo ela mesma, após anos de engajamento pela causa dos índios, de participação em congressos e da criação de uma associação de defesa dos indígenas, havia a expectativa de sua parte em ser nomeada diretora em uma das diretorias de índios criadas pelo novo órgão governamental responsável pela inserção dos índios à comunidade nacional, em 1910 – o SPILTN ( Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais). Durante sua atuação na capital federal a favor dos índios, ela tinha estabelecido relações com o ministro da agricultura, Rodolpho Miranda, cuja pasta era responsável pela administração do SPLTN. Durante um encontro com o ministro, ela teria tido a oportunidade de apresentar seu projeto de educação e de fundação de uma colônia indígena em Goiás. Na ocasião, Rodolpho Miranda teria lhe prometido o cargo de diretora quando o órgão governamental fosse criado.
Mas após a criação do órgão foi esquecida. Não foi sequer convidada para a festa de inauguração. Isso colocou por terra toda a esperança que a professora tinha de concretizar seus planos de educação indígena que havia se iniciado quatorze anos antes da criação do órgão governamental. E ao procurar o ministro para cobrar o cargo prometido, teria ouvido que sua nomeação não seria possível, pois Candido Rondon havia sido nomeado diretor do SPILTN e, na condição de positivista, não aceitava a nomeação de mulheres para cargos públicos. Ainda segundo seu relato, foi a resposta do ministro que lhe incutiu a necessidade de organizar um movimento de contestação à discriminação da mulher e a favor do voto feminino.

Recebi as palavras do Ministro Rodolfo Miranda, como se fossem a declaração positiva da nulidade feminina, como se ouvisse uma legenda ignóbil da desmoralização do meu sexo! Senti, então, em mim despertar o espírito da revolta; compreendi ser necessário uma campanha persistente e tenaz no sentido de destruir o terrível preconceito.

Ela passou a se dedicar à luta pelo direito das mulheres e também à educação feminina. Com base na ambiguidade da Constituição de 1891, requereu seu alistamento eleitoral, mas teve o pedido recusado. Em protesto, fundou junto com outras mulheres militantes, em 1910, o Partido Republicano Feminino, cujo objetivo era mobilizar as mulheres na luta pelo direito ao voto.
Por mais de uma década Leonilda e suas companheiras de militância ocuparam a cena política carioca lutando pela questão do sufrágio feminino. Fazia parte da sua estratégia comparecer a todos os eventos que pudessem ter repercussão na imprensa. Em 1917 o Partido Republicano Feminino, com Leonilda a frente, organizou uma passeata pelas ruas do centro do Rio, com a participação de 90 mulheres, pedindo o direito ao voto.

Em 1911, ela ajudou a fundar e foi diretora da Escola de Artes e Profissões “Orsina da Fonseca”, voltada para a formação de mulheres. O ensino era gratuito e na escola as alunas aprendiam bordado, corte e costura, fabricação de chapéus, enfermagem, além das disciplinas elementares. A intenção era possibilitar a alunas sem recursos financeiros uma formação profissional que as possibilitasse obter meios de sobrevivência no caso de ficarem viúvas ou não se casarem, podendo ter uma atividade econômica que não fosse a prostituição.

Em 1919, Leolinda lançou-se candidata à Intendência Municipal do Distrito Federal, cargo equivalente ao de prefeito. Sua campanha era simbólica, uma plataforma para as mulheres denunciarem a discriminação e a desigualdade social e de gênero existentes na sociedade.
Em 1920, Leolinda reuniu seus registros e guardados remanescentes de sua incursão pelos sertões em uma obra publicada pela tipografia da Escola Orsina da Fonseca. O livro recebeu o título “Da catequese dos índios do Brasil – notícias e documentos para a história”. Leolinda justificou a publicação tardia de seus registros alegando que a idéia da educação laica dos indígenas fora recebida com indiferença e frieza e a tornara alvo de ridículo.

Durante os anos 20 foi se afastando da luta política e passou a se dedicar exclusivamente a seu trabalho como educadora. Em 1932, quando foi promulgado o Código Eleitoral Provisório, que previa o voto para mulheres, Leolinda declarou que morreria feliz, por considerar essa conquista, mesmo parcial, uma vitória do movimento pela emancipação política da mulher. Ainda concorreu em 1934 a Assembleia Constituinte, mas não foi eleita.

Morreu num acidente de automóvel em 1935, aos 76 anos. Por ocasião de sua morte, a revista Mulher, editada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, registrou o fato com pesar e ressaltou seu papel como precursora do feminismo no Brasil. Afirmou a revista da Federação que “teve ela que lutar contra a pior das armas de que se serviam os adversários da mulher: o ridículo. Talvez isto a houvesse magoado profundamente tanto que se afastou das lides feministas. Mas a sua obra patriótica não parou aí: dedicou-se à obra da alfabetização no meio desses milhões de analfabetos, nela consumindo a sua velhice”.

Em 2013, o estado do Rio de Janeiro instituiu o Diploma Mulher Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro, condecorando a cada ano dez mulheres de destaque na defesa dos direitos e da representação feminina.

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