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Masterclass com Adélia Prado: poesia é a revelação do real, é o maravilhamento que o homem tem sobre o mundo

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“Drumond apreendeu a pedrice da pedra, e o que é isso? A essência do ser, o real.” Trago hoje algumas anotações que fiz na masterclass de Adélia, que só pela presença transmite um pouco do maravilhamento que ela atribui à poesia.

O evento fez parte do lançamento do belo site www.poemaria.com.br.

 

“A poesia é um fenômeno natural que todos nós percebemos. Vou dar um exemplo: todo dia você passa por uma arvore quando vai para o trabalho. Certo dia você vê a arvore e exclama: Que linda!! Isso é poesia. Então, poesia é a revelação do real. Quanto mais poética uma coisa é, mais real ela é. O olhar da poesia me dá a pulsação do real. Acontece quando você é tocado pela beleza (não pela boniteza da coisa), pelo ser da coisa, que é belo. E todo ser é belo.

Não faço poemas sobre aconteciadelia3mentos porque poesia não é o enredo, mas aquilo que salta depois do acontecido. É o maravilhamento que o homem tem sobre o mundo. E isso não é só sobre poesia, não. Uma pessoa que não lê pode descobrir poesia nos lugares mais inusitados.

Tive uma experiência com uma criança que estava sendo escolarizada. Um dia li uma prosa poética para ele, que me disse: ‘Ah, isso não é igual aquilo, não!” Ele reconheceu a qualidade da poesia, menino abençoado!

Ser autor não é uma carreira, é uma vocação. A gente não manda nisso. A coisa poética nos é dada, não temos poder sobre ela. Sua responsabilidade é responder àquilo, não inventar. Não há mérito em ser poeta. Se a vida do poeta é melhor que a obra, a obra é ruim. O que vale é a obra, não a biografia do poeta. Claro que toda biografia, e ainda mais autobiografia, é ficção. A verdade é a poesia.

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Um poeta pode ser um ateu de marca maior, a poesia é religiosa a despeito de seu autor. Por que? Porque a poesia me dá uma experiência de unidade. De sentido. Por isso a obra dá a experiência religiosa que me liga ao centro, à unidade, ao sentido. Veja Saramago. Ateu, e escrevia sobre o que? O Evangelho segundo Jesus Cristo…

A busca pela unidade e significação é religião (religare), e a arte me dá a experiência da unidade. Não importa o assunto, é a forma (da arte) que faz isso. Ela nos transporta a essa experiência que é religiosa em si.

Drumond apreendeu a pedrice da pedra, e o que é isso? A essência do ser, o real. E nos deu isso: “Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio…” Ele era agnóstico, e esse poema é profundamente religioso. É um agnóstico tomado pelo sentimento religioso, que não é uma crença e sim um sentimento que me carrega. Pode ver que mesmo os que não acreditam em nenhuma fé tem uma superstição, algo a que dão o valor religioso. Sem isso a gente não dá conta da vida, não.

Estou no mesmo lugar escrevendo o mesmo livro desde o começo. O que eu tenho além do cotidiano? Nada. Para todos nós, é a vida vidinha. A rainha da Inglaterra, a grande atriz, o que elas têm? Depois de inaugurar alguma grande coisa, o cotidiano. E o que todos querem? Ser feliz. Todosadelia5.

Penso na morte todo santo dia, desde que tive consciência dela. Sempre tive muito medo dela, graças a Deus melhorou. Velho com medo da morte é triste! É por causa da morte que a gente passa esmalte na unha, faz mestrado. Ela é a última batalha. Mas morte não é só para velhos. Então, acho que você tem que dar uma resposta para a morte. Não dá para fugir. Hoje estou muito mais pacificada com ela. A religião, a filosofia e a arte são respostas para essa busca profunda. Acho uma tristeza a gente morrer sem dar uma resposta para isso. Para onde vou, quem eu sou..?

A morte não existe, ela é o medo de não ser. Para mim, o não ser (os que dizem “quando morrer acaba tudo”) é pior que o inferno. Cada um quer persistir sem eu ser. Isso é viver eternamente. Essa questão vem para nós no leite da mãe. Já que viemos, estamos aqui, se esconder é a pior coisa, é morrer neurótico.

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Acho que o momento da morte é um momento de grande esclarecimento. A morte de Ivan Ilitch, do Tolstói, é maravilhoso. Ivan se gastou com bobagens, formalidades convencionais, foi certinho durante a vida toda e no final, próximo da morte, disse: “Ah! É maravilhoso!”. Torço para que todos nós tenhamos essa revelação no final. A gente vê isso em muitos moribundos: o êxtase. Eu acho que morte é êxtase. Pessoas atormentadas se pacificam no momento da morte.

Agora estou relendo poesia e ensaios de psicologia, que adoro. Eles estão muito próximos. Estou relendo Diário de um pároco de aldeia, do George Bernanos, que é genial.

Eu tinha um desejo profundo de ser mãe. Quando lia as histórias de fadas, todas as princesas e príncipes se casavam e tinham muitos filhos. Mas a maternidade é uma vocação que nem toda mulher tem.”

 

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