O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Conto de fadas sobre a ansiedade: o fio mágico

B3fio da vida

Era uma vez uma menina que sofria demais por causa de sua ansiedade, até que certo dia a Boa Avó Magica resolveu ajuda-la. Ela lhe deu um presente especial que imediatamente eliminava as terríveis expectativas de catástrofe e as ansiosas expectativas de esperar para ver se algum desejo daria certo. 

Não parece ótimo? A menina parou de roer as unhas e de sofrer tanto. Mas como todo presente mágico, ele tinha um custo.

Esse é um reconto que eu fiz mudando algumas coisas do original, entre outras tornando a protagonista uma menina contemporânea. O original está no livro “Era uma vez… os contos como terapia”, do Inst. Girassol.

 

Era uma vez uma menina muito ansiosa.

Ela nunca estava onde parecia estar. Por exemplo, certa manhã parecia que ela estava em casa tomando café da manhã, mas dentro de sua cabeça ela estava no dia seguinte fazendo a prova de matemática, e indo mal na prova, e depois repetindo de ano porque foi mal na prova, e depois não viajando para as férias na praia e dep…

Ouviu a mãe chama-la:

Menina! Onde você está com a cabeça? Derrubou todo café!

Mais tarde ela parecia estar na escola ouvindo a aula de português, mas dentro da cabeça estava duas horas na frente voltando para casa junto com as amiguinhas, fofocando sobre um menino e planejando ir ao cinema. Mais tarde, quando parecia estar no cinema, a cabeça dela também saia do filme e começava a imaginar se o tal menino estaria esperando por ela na saída, e se não estivesse, e se estivesse com outra, e se isso e depois aquilo.meninafio da vida

Ela sempre estava no futuro: ou se pré-ocupando com alguma catástrofe, ou pré-vivendo alguma coisa muito boa, ou pensando no que ela deveria fazer para acontecer a coisa boa e não a catástrofe, ou achando que não conseguiria fazer nada de qualquer modo.

Isso continuou até que numa tarde quente ela começava a dormir na rede da varanda quando ouviu alguém chamá-la. Abriu os olhos e na sua frente viu uma velha mulher, parecida com uma boa vovó.

Veja o que tenho aqui, menina, disse ela, mostrando uma bola feita de fios de seda cor de prata.

– O que é isso?

– É o fio da sua vida. Se você não tocar nele, o tempo passará normalmente. Mas se quiser que o tempo ande mais rápido é só dar um leve puxão na linha e passará uma hora como se fosse um segundo. Mas vou avisa-la: se o fio tiver sido puxado ele não voltará mais para a bola e desaparecerá como fumaça. Posso deixar a bola com você, mas se aceitar ficar com ela jamais poderá falar disso a ninguém. Quer?

A menina quis, claro. Levo a bola para a mesa de cabeceira e ficou olhando atentamente para ela. Era linda, fofa, bem cheia, leve, brilhante. O fio saia dela lentamente, fluindo devagarinho como gotinhas de chuva escorrendo pela vidraça.

No dia seguinte levou a bola escondida na mochila para a escola. A primeira aula estava tão chata! Queria que fosse hora de voltar com as amigas…

E por que não? Precisava experimentar mesmo, né? A menina deu um leve puxãozinho no fio da bola… e pronto! Na mesma hora a sineta da saída tocou e lá fora o sol estava se pondo. Funcionava!

Daí para frente ela puxava o fio com frequência, mas só um pouquinho de cada vez. Quando estava com medo de uma prova, puxava e já estava no dia seguinte, passada a preocupação. Quando queria muito passear no fim de semana e ainda era quarta, bastava um puxãozinho um pouco maior.

Não precisava mais fazer as coisas muito depressa para terminarem logo e nem ficar na horrível expectativa de saber se o que queria iria ou não dar certo: assim que puxava o fio já sabia a resposta, a situação tinha passado e ela podia respirar aliviada. Não havia mais stress. Não roía mais as unhas. Não precisava se preocupar mais.

Claro que ela ainda tinha que estudar todas aquelas matérias chatas e esforçar-se para passar no vestibular. Tinha que desistir de passeios por causa disso, prestar toda atenção no que estava lendo, ficar trancada em casa até o fim do ano e, pior, viver morrendo de medo de esquecer tudo no nervoso do exame.

Mas espere aí! Por que ela tinha que passar por tudo isso, se com um simples puxãozinho do fio e já emocafio da vidastaria na faculdade? Isso mesmo!

Quando abriu os olhos já não era menina e sim uma moça no primeiro ano de  Direito. Gostou do curso, conheceu um belo moço e a vida ficou muito divertida. De vez em quando dava um puxãozinho no fio para chegar o fim de semana e viajar com ele, de vez em quando dava outra puxadinha para escapar de alguma dificuldade ou de um período muito tenso, mas só de vez em quando.

Então o belo moço lhe disse que ia fazer um mestrado no exterior, apenas dois anos, e que depois de formada ele já estaria de volta e os dois se casariam. Não seria muito tempo, etc.

A moça agora só pensava nisso. Ele lá longe, sozinho… Iria arrumar outra. E ela não iria saber se ele arrumou outra. Não saberia se ele iria voltar mesmo, e se quando voltasse ainda iria querer casar com ela. Não podia viver nessa ansiedade dois anos intermináveis, sem saber o que iria acontecer. Não mesmo.  Deu uma boa puxada no fio para passar os dois anos e …

E a moça se viu namorando outro moço, ainda mais bonito que o primeiro.

Ótimo, ela pensou, agora já está tudo bem, não passei pela dor da separação, estou com outro amor, já formada e trabalhando. Esse fio é uma maravilha!

Mais algumas puxadinhas no fio até encontrar o moço certo e pronto, estava casada, feliz, trabalhando num escritório e esperando um filho. Seguiu-se um período maravilhoso, só um ou outro probleminha que não gastava muito fio para escapar.

Mas aquele bom período acabou e surgiram problemas mais sérios. O marido perdeu o emprego e agora havia três filhos para sustentar. Ela precisava trabalhar feito louca para dar conta das despesas. A moça, agora mulher feita, pegou o novelo e puxou o fio.

Abriu os olhos seis meses depois, mas a situação tinha piorado. O marido estava bebendo, o dinheiro ficando ainda mais curto, as crianças precisando de mais atenção e recursos.

Chega disso, pensou, e puxou fortemente o fio.

Abriu os olhos três anos depois. Ela estava divorciada, os filhos na pré adolescência e a vida corria bem mais fácil.

Agora chega de puxar tanto, pensou ao ver umas rugas fininhas ao redor dos olhos.mulherfio da vida

Guardou a bola e viveu uma fase excelente. Conheceu um novo amor, viajou, alcançou um bom reconhecimento profissional e financeiro, fez novos amigos.

Então começaram os problemas com os filhos. Um que andava com más companhias, outro que não passava de ano e não queria mais ir à escola, outro que foi ficando cada dia mais difícil. Numa horrível noite em que um deles não voltou para casa e suspeitaram de rapto, ela pegou a bola e puxou o fio.

Acordou dois dias depois com o menino em casa e bem. Resolveu que daí para frente não iria mais passar tanto nervoso. Manteve o fio sempre a mão.

E agora era o namorado que não tinha paciência com os meninos. Bastava resolver um problema para que outro aparecesse! O pai doente veio morar com ela, e foi terrível acompanhar seu sofrimento. A vida se embananou entre correrias, discussões com os meninos, sua complicada relação amorosa, assistir a agonia do pai, solidificar a carreira. Ela dava puxadinhas no fio pulando um dia, uma semana, um mês, mas a fase difícil não terminava.

Quando começou a ter sinais de gastrite, resolveu:

– Ok. Chega!

Puxou o fio bem forte por via das dúvidas.

Quando abriu os olhos haviam se passado alguns anos. Um dos filhos havia saído de casa e ninguém sabia onde estava. Os outros dois filhos estavam ocupados com as próprias vidas. O namorado havia sido substituído por outro.

Um bom tempo de estabilidade emocional e financeira foi sacudido com um desastre com o filho mais amado, mas um puxãozinho de só alguns meses foi suficiente para vê-lo restabelecido e com um filho a caminho.

Ao visitar a sepultura do pai ela pensou que a vida andava rápido demais, mesmo sem puxar o fio. Seu cabelo precisava ser tingido para disfarçar alguns fios brancos, os fios do novelo também estavam quavelharfio da vidase cinzentos, e a bola muito menor.

Poucos anos depois, num exame de rotina surgiu uma suspeita de doença que demandava mais exames. Nervosa, ela puxou um pouco o fio – e a suspeita da doença havia se confirmado. Ela teria que passar por um longo tratamento sem certeza de sucesso.

A mulher, agora de meia idade, hesitou antes de puxar o fio, que teria que ser forte o suficiente para pular uns dois ou três anos. Aí ela saberia se o tratamento deu certo ou não…  Porém a custo de mais tempo de vida. Valia a pena?

-Não dá para suportar esse stress, pensou. Não.

Puxou o fio.

Despertou curada, aposentada e, claro, bem mais velha. Não havia visto o nascimento e os dois primeiros anos do netinho, nem a volta de seu filho perdido para casa, nem o espetacular sucesso do outro filho, mas não havia sofrido a expectativa e as dores da doença.

A bola agora era bem pequenina.

Certa tarde estava deitada na rede da casa de praia, quase adormecida, quando ouviu alguém chamá-la. Abriu os olhos e bem na sua frente viu aquela velha mulher, igualzinha da primeira vez, ainda parecida com uma boa vovó.

Então, menina, sua vida foi boa? Perguntou a vovó.

Não tenho certeza… respondeu ela. É verdade que por causa da bola mágica eu me livrei da ansiedade e de muito sofrimento. Pulei as partes ruins da vida e isso é ótimo, puxa! A bola funciona mesmo.  Mas… foi tudo tão rápido! E agora me resta tão pouco tempo! Sinto que ficou faltando alguma coisa, que não dei conta de tudo…  Olha, pensando bem não sei se ter essa bola foi bom ou foi ruim, afinal.

–  Que ingratidão! Mas o que acha que ficou faltando na sua vida?

–  Tudo de que fugi e que teria me transformado, acho. Quem eu seria hoje se essa parte da minha vida não estivesse faltando? Parece que a vida correu a meu lado e eu não a vivi direito. Parece que não aprepiscfio da vidandi nada e que minha trajetória não tem sentido, entende?

– Hum…  Então vou lhe conceder um desejo, um só, para que você possa corrigir isso. 

A menina, agora uma velha senhora, pensou. Reviu sua vida como se fosse um filme, com as partes boas e ruins. E disse:

– Quero começar tudo de novo, sem a bola.

Fechou os olhos. Quando os abriu, a velha senhora, agora de novo uma menina, estava na mesa do café da manhã de sua infância ouvindo a mãe dizer:

–  Menina! Onde você está com a cabeça? Derrubou todo café!

 

 

 

 

 

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