O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Entrevista: a artista plástica Ddaniela Aguilar e a consteladora familiar Sonia Farah redesenham o tarô de Napoleão

Sonhos e pesquisas, intuições e estudos, elementos de Cartas - Le Petit Dassine - foto Li Dornelascartomancia e criação artística: foi desse jeito integrativo e feminino que Ddaniela e Sonia redesenharam o tarô de Mme Lenormand, famosa vidente e cartomante de Paris na época de Napoleão Bonaparte.

Cartomante é um nome carregado… mas são as cartomantes que, há muito tempo, acolhem historias e desabafos das mulheres. Nem tudo podia ser contado para o padre. Nem tudo a gente quer contar para o padre. A cartomante nos inspira, particularmente”, afirma Sonia, ela mesma cartomante e consteladora. 

Formada em economia, Sonia Farahrealizou prosperidade”, como diz no catalogo da exposição, através do mundo dos negócios. Numa fase posterior da vida, ela deixou essa profissão e foi trabalhar com constelação familiar e leituras de tarô. Vimos isso acontecer com muitas entrevistadas de nosso livro, que fizeram uma mudança radical na idade madura ao descobrir novos interesses ou retomar interesses antigos e torna-los sua nova ocupação. É um renascimento, um recomeço e um enriquecimento da Jornada,um outro momento da vida no qual já é possível desfrutar fazer o que se gosta com mais intensidade”.

TENDA1- Ddaniela Aguilar - Monica Filgueiras Galeria de Arte - foto Tom Dib

Ddaniela Aguilar tem uma trajetória artística ligada a sonhos e imagens simbólicas. Ela me contou que lembra, anota e desenha seus sonhos desde sempre (logo me identifiquei, porque faço isso também). Em 2007 passou a pintar telas com os motivos (simbolizados, não necessariamente literais) de seus sonhos e assim montou “a Tenda”, espaço forrado no piso e paredes por essas telas. Como toda tenda que vale o nome, essa instalação viajou e foi montada em vários lugares, várias vezes. Nela as pessoas entravam e contavam seus sonhos para Ddaniela, que os anotava (ou pedia para eles mesmos anotarem), desenhava, incorporava, os lia em outro lugar… Ou seja, com os próprios sonhos ela criou um espaço inspirador e belíssimo (veja as fotos da Tenda) para acolher e honrar os sonhos alheios e os seus.

 Forma feminina e inclusiva de trabalho:

Lenço para o jogo do le Grand Tableau , Le Petit Dassine - Foto Li Dornelas

Em 2008 Ddaniela convidou Sonia para  juntas fazerem um tarô, já que as pessoas entravam na Tenda dos sonhos e perguntavam:” cadê as cartas do baralho para você ler para a gente? Elas resolveram  trabalhar no tarô de Madame Lenormand, cartomante que na Paris do sec XVII lia cartas para Josephina, esposa de Napoleão (e certa vez o irritou tanto – que será que leu para sua mulher…? – que ele a mandou para a prisão, embora não por muito tempo). As cartas de Mme Lenorand tinham sido desenhadas por ela mesma, e agora as duas as re-desenvolveram juntas “hibridando sonhos e historias com elementos de cartomancia”:

Desde o inicio desse trabalho, Ddaniela sonhou com um homem tuaregue (pertencente aos “homens azuis”, nômades do deserto africano) que dava sugestões sobre o tarô e que as levou, numa pesquisa histórica, até Dassine, sultana poeta e libertária que teve existência concreta. Assim, o tarô nasceu desse misto de pesquisa, fazer artístico, intuição, coleta de histórias, sonho e conexão com mensagens do inconsciente individual e coletivo, tudo abrigado na viajante Tenda-útero. Uma forma de trabalho que sem prescindir de métodos racionais abre-se para além deles,  ao mesmo tempo contemporânea e arcaica,  feminina e integrativa. 

Isso tudo e muito mais elas me contaram na exposição desse trabalho na Galeria Monica Filgueiras e numa entrevista que pedi para esse site:

Sonia, como uma bem sucedida economista virou consteladora familiar e cartomante, e como o tarô entra na constelação que faz?

Sonia Fariah. foto Tom Dib

 Sonia: A economia foi importante para eu compreender uma parte do mundo e da sociedade, trabalhar, resolver algumas coisas de ordem pratica. Mas a pessoa é curiosa, encantada com as pessoas e as suas historias. Muitas vezes, acontecia de ir para uma reunião de negócios, realizar o trabalho e depois a conversa se transformar em narrativas humanas muito interessantes. Fiquei achando que gostava mais dessa segunda parte e comecei a me preparar para aproveitar essa capacidade de escuta e de leitura de campo em uma outra profissão, em um outro momento da vida no qual já é possível desfrutar fazer o que se gosta com mais intensidade.

Escolhi as constelações familiares porque elas nos proporcionam uma compreensão muito transformadora da alma e das relações humanas.

As cartas e os oráculos foram acontecendo. Há uma coisa distraída na alma da gente que faz perguntas e abre possibilidades de futuros possíveis. As cartas e os oráculos são sistemas simbólicos que também nos ajudam a compreender a alma e os territórios que nos habitam. O oráculo não entra, exatamente, na constelação. Talvez seja o olhar sistêmico e fenomenológico das constelações que nos ajude a desenvolver as narrativas dos jogos. 

Ddaniela, fale sobre seu trabalho e sobre as tendas de sonhos

Em 2007, iniciei um projeto que desde então tem sido o mote para meus processos artísticos. Utilizando o registro de 144 sonhos sequenciais, surgiu “Sonhos Mutantes”, como plataforma de criação para transportar as memórias de sonhos e desejos parDdaniela Aguilar . foto Tom Diba diversos suportes artísticos.

A Instalação artística “a Tenda”, é parte deste projeto e apropria-se da dimensão do coletivo com a compra simbólica de sonhos. E logo, as ações de compartilhamento destes sonhos coletivos, delimitam a Tenda como território de memória onírica da artista e os sonhos dos indivíduos uma mostra da alma onírica das cidades.

A Tenda como instalação e objeto artístico, se comporta como casa, caixote ou simplesmente tenda. Monta, desmonta e se refaz com flexibilidade. As pinturas (acrílicas e corantes reativos s/tela) em dimensões variadas em referência a tapetes superpostos formam paredes, chão e parte do teto.  São elaboradas a partir dos sonhos agrupados através de uma imaginária combinação numéricas denominadas ”Série Arabescos” e “Série O Baile”. Após 2010, novas   séries de desdobramentos aconteceram , com ações que envolveram  cada vez mais a  memória do coletivo e  agora em 2016, como síntese   de todos estes  processos,  a Tenda se comporta como viajante do tempo, das  cartas do Oráculo “Le Petit Dassine”. Cores e intuições celebram.

 

Por que vocês resolveram trabalhar com tarô, e especificamente com esse tarô?INSTALAÇÃO - Oráculo Le Petit Dassine - Grand Tableau - foto Tom Dib

Ddaniela realiza instalações artísticas no formato de tenda desde 2007, com o Projeto Sonhos Mutantes. Uma tenda formada pelas obras que delimitam um espaço íntimo para  abrigar os sonhos e as historias das pessoas. Os visitantes eram convidados a escrever seus sonhos. 

Os sonhos revelados em uma cidade seriam lidos por outras pessoas em outros lugares onde as tendas fossem montadas e intervenções artísticas coletivas foram acontecendo. No meio desse processo, as pessoas olhavam para a artista e perguntavam sobre as cartas:

– Cartas, que cartas?

– As cartas do baralho para você ler para a gente.

– Mas, não tem carta…

– Tinha.

As pessoas perceberam que tinha carta dentro da tenda. A artista reconheceu e deu jeito de materializar o oráculo que conceitualmente dá suporte para que a tenda, esse espaço intimo e criativo, seja recriado, simultaneamente, por várias pessoas. Mas, qual baralho realizar? Essa foi a primeira escolha. A figura de Madame Lenormand nos chamou muito a atenção. Como seria essa mulher que lia cartas para Josephine e que esteve tão perto do poder, em plena França da Revolução? 

TENDA - Ddaniela Aguilar - Monica Filgueiras Galeria de Arte - foto Tom Dib

Madame Lenormand foi a maior cartomante de seu tempo e seu nome representa toda uma tradição de leitura das cartas que vem de rotas antigas e culturas ancestrais. Começamos a perceber que o sistema simbólico Lenormand, apesar de ser tratado como um oráculo menor, era extremamente rico e interessante e ele continuou nos encantando com sua historia, com sua estrutura sistêmica, semântica e sintaxe próprias.

Escolhido o oraculo, pensamos em realizar as cartas em um formato redondo, feminino. Mas, apareceu um homem tuaregue dizendo que não. Eles nos contou que entre os tuaregues são os homens que cobrem o rosto e que quem os vê com suas espadas, lanças e escudos não suspeita que esses homens vivam em igualdade com suas mulheres e nem que se deixem seduzir ao som de seus violinos tocados ao luar. Fomos pesquisar e nos encantamos por Dassine, que foi uma sultana tuaregue, escreveu poesias belíssimas sobre o amor e a paz, que nos revela esse momento histórico e cultural onde as mulheres viveram em paridade com os homens. Essas duas mulheres nos inspiram, cada uma em sua força e beleza.

E há ainda a cartomante. Cartomante é um nome carregado, muitas vezes quem lê as cartas prefere ser chamada de taróloga para tentar uma diferença com a outra, tida como embusteira. São as cartomantes que, há muito tempo, acolhem historias e desabafos das mulheres. Nem tudo podia ser contado para o padre. Nem tudo a gente quer contar para o padre. A cartomante nos inspira, particularmente.

Ddaniela Aguilar e a Tenda - Foto Tom Dib

Como se desenvolveu a parceria e o processo desse trabalho, que foi inspirado também pelas mensagens dos sonhos da Ddaniela?

Quando, em 2008,  Ddaniela começou o processo de criação e pesquisa sobre os oráculos e cartomancia, ela convidou a Sonia Fariah para participar do projeto, que nesse momento tinha lá seus oráculos mas não se sentia em lugar de escrever sobre cartomancia.

A artista insistiu no convite porque queria que as duas desenvolvessem juntas o olhar e a obra: hibridar sonhos e historias com elementos de cartomancia sustentando o conceito da tenda que cruza campos mórficos e fura tempo e dimensões com sua linguagem simbólica.

 

3 comentários

  1. crisstina karklin disse:

    O Tarô Le Petit Dassine primeiramente é arte,é belo, carregado de sentimento e vida.
    Nos revela nossa porção feminina carregada de ancestralidade.
    Inspira nossa beleza interna porque toca nossa alma!

  2. biapicchia disse:

    Concordo inteiramente, Crisstina!

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