O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Entrevista: O junguiano Franklin Chang fala sobre seus mestres Pai Liu, Marie Louise von Franz e Nise da Silveira

jung mestre liuSempre nos disseram para entrevistar homens e não apenas mulheres, mas queríamos alguém que valesse essa mudança. Bom, achamos. Hoje trago trechos tirados da entrevista que fizemos tempos atrás com Franklin Chang, um psicoterapeuta junguiano suave, aberto e profundo que nos tocou e motivou. Tanto o relato de sua vida pessoal como sua visão de mundo mostram como é possível lidar bem com as polaridades Oriente-Ocidente, homem-mulher, ordem tradicional e vontade pessoal, consciente-inconsciente.

Discípulo do grande taoista Mestre Pai Liu, Franklin estudou e trabalhou com engenharia, mas com o fim do casamento deu uma guinada de vida e com  cara, coragem e pouco dinheiro foi fazer formação no Instituto Jung na Suíça, onde recebeu orientação de Marie Louise von Franz  – veja que deliciosas historias ele conta abaixo sobre ela. Na volta para o Brasil foi convidado por Nise da Silveira para trabalhar na Casa das Palmeiras, onde foi diretor por vários anos.  Atualmente Franklin atende em consultórios em SP e no Rio.

 

Encontro com a psicologia de Jung e com o taoísmo de Mestre Pai Liu

Franklin Chang nasceu em Curitiba numa família chinesa e é irmão de Jerusha, uma de nossas entrevistadas do Feminino Sagrado. Mudou-se para São Paulo onde estudou engenharia na Poli pois, segundo a ancestral tradição da cultura chinesa, obedeceu ao pai que dizia que  “um homem só podia escolher entre ser médico, mestre liuengenheiro ou advogado.” Nesse período começou a se interessar por taoísmo, e “encontrei o Mestre Liu, que foi uma pessoa extremamente importante para mim, porque finalmente através dele eu compreendi o que era o taoísmo na prática… Ele foi a primeira pessoa que na realidade entendeu que o corpo do ocidental não é igual ao do chinês.”

Junto com engenharia foi estudar filosofia, que achou uma coisa muito teórica. Eu queria uma coisa mais prática, e a psicologia poderia ser essa ponte entre uma teoria e a realidade.” Então ele encontrou um livro que “ mudou a minha vida. O livro chama-se Jung, Vida e Obra, autora Nise da Silveira. Quando eu li aquele livro, me veio como se tivesse caído um raio na cabeça. Eu disse: – “É isso, é isso que eu quero, é isso!” Uma certeza total.” E passou a frequentar um dos primeiros grupos junguianos em São Paulo, de Leon Bonaventure.

Formou-se, trabalhou como engenheiro, casou-se e teve três filhos. Mas “alguma coisa dentro de mim não ficava satisfeita, havia uma inquietude, uma coisa que parece que estava aguardando uma oportunidade pra emergir. Eu não sabia o que era, só sentia aquela inquietude.” Essa frase nós sempre ouvimos de pessoas que ouvem o Chamado para uma outra vocação que não sabem ainda qual é, mas que se anuncia como desassossego…

Quando o casamento acabou ele tirou um ano sabático na Europa, onde acabou fazendo uma mudança radical de vida ao entrar para a formação no Instituto Jung em Zurique pois “segui a ordem do pai mas também segui a minha.”

 

Marie Louise von Franz e a importância dos sonhos

Manteve-se na cara Zurique dando aulas de Tai Chi que aprendera com Pai Liu. Uma vida dura; além de trabalhar, das 300 horas de analise, do atendimento, dos estudos e supervisão, era preciso fazer uma monografia para a formação. Franklin conta que queria fazer uma monografia com alguma coisa que juntasse a
cultura chinesa com a psicologia junguiana. “Tinha dois projetos: um era uma discussão de um texto alquímico do século primeiro, e o outro era um livro de um chinês do século III pra IV, chamado Ko Hung, que coletou e guardou livros e textos taoistas antigos para não serem saqueados e queimados na guerra. Obviamente muita pouca gente entendia de cultura chinesa lá, mas eu tinha uma pessoa em mente para fazer a orientação, a Dra. Marie-Louise von Franz. Mas ela estava doente com Mal de Parkinson e já tinha abandonado as atividades acadêmicas.

Bom, fui conversar com um supervisor meu na época, que me deu uma ideia genial: Por que você não escreve pra ela? Carta não dói. Escrevi, ela me convidou pra tomar um chá com ela. Fui e expliquei meu projeto pra ela, que falou:

Eu gostaria muito, mas eastou muita velha, etc.

Conversamos um pouquinho e eu saí desanimado, e realmente eu senti que não dava.

Mas naquela noite eu tive um sonho, e o sonho era uma pedra cheia de símbolos alquímicos. Eu desenhei essa pedra, mandei o desenho numa cartinha pra ela – já que carta não dói, né? – e disse:

– Dra. Von Franz, o encontro com a senhora foi tão incrível, tão profundo que me proporcionou este sonho, e eu gostaria de lhe agradecer.

Ela me chamou mais uma vez pra conversar, ficou me olhando bem e perguntou: –

Quais são mesmo os teus projetos? Você teve algum sonho sobre eles?

Eu contei de novo e falei:

Eu tive um sonho sobre o Ko Hung, o alquimista que juntou as obras, sim. O sonho mostrava o livro dele e que na capa havia uma dedicatória: Para o meu filho dos anos futuros.

E Von Franz falou:

É esse, ele é o seu pai.

– Meu pai?

– É, ele é o seu pai, e eu vou te ajudar.

Aí o mundo abriu-se em um jardim florido! Maravilha!

Ah, a dra. Von Franz! Você não conseguia ficar perto dela sem contar um sonho. O teu inconsciente era puxado por ela. Ela puxava e de repente você seguia contando um sonho. Podia falar qualquer assunto, mas de repente você contava um sonho. Ela entrava em você de um jeito que parece que abria o inconsciente e aí você começava a falar dos teu sonhos. Não é porque você quisesse, era o sonho que queria falar pra ela. Não eu, era o sonho que a queria. Ela ás vezes ficava em silêncio, mas era um silêncio que você entendia um monte de coisas. Porque ela estava com as imagens processando e você entrava naquela energia, entendeu? Ela foi uma Mestra pra mim.

Para vocês verem também a sua filosofia de vida: depois de várias sessões, eu cheguei na última e tinha que acertar, pagar. Perguntei quanto devia pelas sessões, pelo trabalho todo. Ela sabia que eu era do Brasil e devia estar passando por dificuldades (década de 90, imagina). Ela sabia, estava antenada em tudo, e falou:

Não vou te cobrar nada.

Nada!?!

– Não, isso é pelo Deus dos alquimistas.

Eu fiquei assim… Mas entendi o gesto dela, sabe, porque na minha vida eu também nunca coloquei o dinheiro em primeiro lugar. Já atendi muita gente de graça, mas gente que me toca, né? Porque eu entendi o que ela disse: o trabalho não é só para você, é para alguém, alguém… um Deus, digamos assim. E no caso, como ela falou, o Deus dos alquimistas. Nesse sentido ela foi uma Mestra, né?”

 

Conciliação, harmonia e vocaçãotai chi pai lin estampa - agasalho 004

Franklin ficou 5 anos e meio em Zurique. Não foi fácil: os filhos aqui, o pai morreu no meio do caminho, ” porém eu nunca tive dúvidas, nunca. Parecia que eu tinha encontrado o meu destino, ali era pra mim tudo, entendeu?” Como nas nossas entrevistadas do livro, o encontro dele com a Bliss, com o próprio destino, trouxe essa forte impressão de que se está no lugar certo fazendo a coisa certa.

Na volta para o Brasil, ele alternou a criação e cuidados dos filhos com a ex mulher, pois mesmo morando fora sempre se manteve muito próximo a eles. É inspirador ver que  ele sempre soube conciliar coisas opostas nas quais a maioria das pessoas tropeça: seguiu a ordem do pai sem deixar de lado sua própria vontade, os ensinamentos que recebeu de Mestre Liu conviveram e até subsidiaram sua formação em psicologia analítica, os cuidados com os filhos não perderam espaço para a vocação e trabalho.

 

Nise da Silveira e Casa das Palmeiras

Franklin abriu consultório psicoterapêutico em SP, mas conheceu Nise da Silveira “e foi um encontro marcante, a Dra. Nise é uma pessoa profunda.Nise-da-Silveira

No segundo semestre de 94, a Dra. Nise me perguntou se eu não queria dar um curso de psicologia junguiana lá no Rio. Fui e dei o curso, mas aí ela começou a me seduzir, no bom sentido, né? Ela começou a falar da casa das Palmeiras, me mostrou o arquivo de imagens, e falou: “ah, você podia vir trabalhar aqui..” E eu falei: não, eu tenho família, tenho filhos, tenho trabalho... E ela: “não, você não precisa vir todo dia não, vem aqui quando você puder”, com aquele jeitinho dela…

Fiquei 4 anos indo e voltando para o Rio, depois comecei a atender no Rio e fui desativando meu consultório aqui. Por sorte eu já era mais ou menos conhecido lá, logo encheu o consultório e consegui me virar. 

Olhando hoje, eu vejo que a Dra. Nise foi também uma mestra pra mim. Não só pela ligação dela com Von Franz e por ter sido a pessoa que introduziu Jung no Brasil, mas pelo aspecto revolucionário dela, pelo aspecto humano dela, pelo aspecto de querer uma nova psiquiatria, de querer mais justiça, de querer mais dignidade para os doentes mentais. E essa luta, que eu concordava que nós tínhamos que prosseguir, e essa proposta, de certa forma eram concretizadas na Casa das Palmeiras.

Depois de várias mudanças de diretoria, ela me disse: “Agora é sua vez, você vai assumir isso aqui”. E falei: mas eu não estou preparado, não sou bom na administração.. “Não, não quero saber..” Não tinha meio termo com ela, “é você e pronto”. Aí eu fui ser presidente da Casa das Palmeiras e tinha que cuidar da parte técnica e da administrativa. Então foram anos de aprendizado, e aprendi também a lidar com a instituição como um todo. Tem que lidar com gente, poder, dinheiro, e não sei o que… E com a sombra, né? Tem que lidar com muita coisa de sombra. Mas só a companhia dela, a presença, as conversas com ela já valiam a pena, entendeu? Senti nela um pouco a continuação daquela relação com a Dra. von Franz, mas num outro nível, não nesse nível mais sutil do inconsciente, mas num nível terreno.”

7 comentários

  1. Sérgio Ap. Furtado (IJEP) disse:

    Bia, do meu coração, estava abandonando os estudos sobre os trabalhos do Dr. Jung, depois desta entrevista, por sinal, maravilhosa, vou retornar os estudos. Obrigado amigona.

    1. biapicchia disse:

      Sergio, uma pessoa com sua sensibilidade não deve abandonar nunca! Grande abraço!

  2. Carol disse:

    Nossa, que bela e inspiradora entrevista. Muito grata a vocês! Aprendo muito por aqui… Estou há tempos nesse período de desassossego e sempre fico contente quando leio histórias de pessoas que decifraram seu chamado e o concretizaram. Abraço e luz!

    1. crisbalieiro disse:

      Obrigada, Carol, pelas palavras! Gente que “abraça” seu desassossego sempre nos inspira!
      Cris

  3. Cid disse:

    Chorei!

    Obrigado

    1. crisbalieiro disse:

      Uma história comovente, não Cid?
      Abraço
      Cris

  4. Kelly disse:

    Inspirador!
    Obrigada!

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