O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

As mensagens simbólicas de Nossa Senhora Aparecida

 Primeiro surgiu um corpo sem cabeça, depois a negra cabeça sem corpo. Então, completa, Nossa Senhora Aparecida foi colocada no altar.  Apesar de ser tão cultuada em sua linda basílica, parece que ainda não refletimos o suficiente nas mensagens que Ela traz. 

Além das implicações religiosas e sociológicas, o que significa em termos simbólicos a padroeira do Brasil ser negra e ter sido achada sem cabeça?  

Hoje trago trechos de um artigo da psicóloga Lucy Pennaque ilumina essa questão. Para ler e baixar o texto completo clique: Aspectos simbólicos do mito de Aparecida.

Sobre a cor negra:
“O primeiro passo para a interpretação desse mito é aceitar que Aparecida é uma Madona Negra, um arquétipo que pertence ao inconsciente coletivo há milênios. Seus atributos positivos são criatividade, energia telúrica, força emocional, inclusividade materna, aceitação do mistério bem como sabedoria para dar luz aos conteúdos inconscientes.
Os atributos negativos da Madona Negra se revelam quando uma pessoa ou um grupo social reprimem a expressão do inconsciente, desprezando os símbolos, os sonhos, a imaginação, a intuição. Então, a sexualidade e a agressividade tornam-se descontroladas. A violência irrompe sob qualquer pretexto e a sexualidade adultera-se pela obscenidade sombria, porque os instintos estão pervertidos.
No campo simbólico, a cor preta está associada com a noite, com o mistério do infinito, a matéria-prima do mundo ainda não tocada pela luz do sol, a lava vulcânica, o fundo dos oceanos. A Sombra coletiva é também a matéria nigris – primeiro estágio do opus alquímico (JUNG, 1968b). Significa ainda a energia telúrica, a percepção do planeta como um ser vivo (Gaia). Desde o neolítico, a caverna, o útero, o fundo dos oceanos e das águas em geral foram considerados locais sagrados da origem dos seres humanos e não humanos. O ventre escuro da Mãe-Terra é berço e túmulo, assim o preto também anuncia a dissolução e a morte.
A identidade da Madona Negra revela-se no poder de conciliar os opostos: “A atividade criativa da Madona Negra é sua Face por excelência, que está ancorada no centro da Terra como um Sol Negro”, comenta a psicóloga (LEVY, 2002, p. 82). O Sol Negro é um símbolo da Sombra coletiva, um arquétipo do lado escuro da humanidade, acessível àqueles que são iniciados no auto-conhecimento. Como resultado dessa iniciação, a Sombra pode ser transformada, e sua energia liberada mediante o auto-sacrifício de toda intenção egocêntrica e egoísta.
Sobre a cabeça:
A questão é que cabeça e mente são ainda confundidos com consciência, dificultando o entendimento do que seja uma verdadeira integração entre esses opostos… Integrar cabeça e corpo significa buscar o equilíbrio entre os aspectos instintivo e racional para obter saúde física, emocional, mental e espiritual.
Entregar a cabeça para uma transformação da consciência representa uma visão mais sutil do mito de Aparecida que pressupõe a aceitação do indizível, do mistério. Uma interpretação mais introspectiva que revela a sede da água da vida e não apenas de aquisições materiais.
O sentido de ‘entregar a cabeça’ é a morte simbólica do ego, ou seja do conceito de si. Perder a cabeça, dessa forma, é trocar de identidade, deixar de agir em proveito próprio, buscando sempre a auto-proteção, a autopromoção. Em lugar dessa atitude, a pessoa perde a si para entregar-se a um valor maior, por exemplo a lealdade ao acordo feito, a obediência à voz de Deus, ou uma dedicação de ajudar os outros.
Da mesma forma que no mito, as sutis inspirações do mestre interior, da voz divina, ou, em linguagem analítica, as sugestões oníricas do Self – o arquétipo da totalidade psíquica – devem ser lidas simbolicamente. A ‘cabeça’ a entregar para obter uma revelação transcendente é o desapego do excesso de racionalismo que vê a ciência consumidora e sem alma como base da felicidade.
O encontro com o mistério, o indizível, o inexplicável, o simbólico poderá acontecer por meio da imaginação, das visões, dos sonhos finalmente aceitos como parte valiosa da experiência humana. E, também, a aceitação do transcendente manifestando-se em si e fora de si mesmo trazendo a percepção da interconexão entre tudo o que existe.
Seja de que maneira for, uma pessoa, nos dias de hoje, acaba perdendo sua cabeça. Ou é engolida pela massa e passa a viver como robô, fazendo tudo o que ‘deve’, sem consciência própria, ou morre para si, entregando-se a uma causa maior. Para esse objetivo, porém, precisa de vida interior. A solidariedade para com o outro, humano e não-humano, alimenta-se dos sonhos e das visões em que as pedras falam, as árvores cochicham, as imagens saem dos rios para dar seu recado de transformação.”


post de Bia Del Picchia


2 comentários

  1. Vindo de vc, que conhece bem o assunto, é super elogia… grata, bj!!

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