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MULHERES MARCANTES: Virgínia Leone Bicudo (1910/2003)

Virgínia Leone Bicudo foi socióloga e uma das mais importantes psicanalistas brasileiras – a primeira não médica a ser reconhecida como psicanalista – , ocupando um lugar de destaque na divulgação e construção da psicanálise no Brasil. Tornou-se também uma referência nos estudos raciais. 

Nasceu em São Paulo, filha de uma imigrante italiana e de um negro. A mãe, Joana Leone Bicudo, foi babá da filha de criação do coronel e senador Bento Augusto de Almeida Bicudo, que por sua vez era padrinho do pai de Virgínia, Teófilo Bicudo. Em São Paulo, o pai, com o apoio do coronel Bicudo, tornou-se funcionário dos Correios e Telégrafos e depois ascendeu na instituição até chegar a diretor de uma agência paulistana. Assim como as três irmãs, Virginia fez o curso normal, mas não chegou a ser professora, pois o pai não permitiu que fosse para o interior do Estado trabalhar em condições consideradas precárias naquele tempo. Fez então o curso de educação sanitária no Instituto de Higiene de São Paulo em 1932. Após o curso tornou-se funcionária da Diretoria do Serviço de Saúde Escolar do Departamento de Educação, onde tinha como atribuição dar aulas de higiene em escolas do Estado de São Paulo. 

A partir dessa experiência, Virgínia se interessou pela sociologia e iniciou o curso de ciências sociais na Escola Livre de Sociologia e Política, em 1936. 
Em 1939, teve contato com a psicanalista alemã Adelheid Koch, que veio para o Brasil com o início da 2ª Guerra Mundial. Através dela começa seu interesse pela psicanálise, depois ampliado pela formação e contato com o médico e psicanalista Durval Marcondes. No início da década de 1940, Bicudo e Marcondes começaram uma parceria na Escola Livre de Sociologia e Política, com a oferta das disciplinas higiene mental e psicanálise, que se transformou em importante ferramenta na difusão da psicanálise no Brasil. 

Em 1942, Virgínia iniciou o mestrado, sob a orientação de Donald Pierson, na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Lá teve a oportunidade de mesclar seus interesses pela sociologia e pela psicanálise ao estudar a questão racial e os conflitos existentes entre brancos e negros. Sua dissertação de mestrado, intitulada Atitudes Raciais de pretos e mulatos em São Paulo, foi a primeira defendida no Brasil sobre a temática.

Em 1945, tornou-se professora-assistente da cadeira de higiene mental da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo. 
Em 1949, Virgínia foi convidada para integrar a equipe do Projeto Unesco em São Paulo, que visava realizar diversas pesquisas sobre as relações raciais. O projeto era coordenado por Roger Bastide e Florestan Fernandes.

Desenvolve por alguns anos, de forma paralela, as carreiras de socióloga e de psicanalista; depois, abraçará integralmente a psicanálise. Com Durval Marcondes, Adelheid Koch, Flávio Dias, Darcy de Mendonça Uchoa e Frank Philips integra o Grupo Psicanalítico de São Paulo, embrião do que virá a ser, dentro de alguns anos, a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. 

Nas décadas seguintes, Virgínia Bicudo continuou com o trabalho de divulgação e institucionalização da psicanálise no Brasil. Unindo-se ao crescente interesse na divulgação de atividades das instituições científicas por intermédio dos meios de comunicação, Virgínia, que tem uma grande facilidade de se expressar e comunicar com paixão o que pensa e sabe, se dedica a transmitir conhecimentos básicos que possam auxiliar pais e educadores na compreensão das necessidades emocionais da criança em seu desenvolvimento através de um programa de rádio que comanda Nosso Mundo Mental, na Rádio Excelsior. Com a mesma intenção publica textos no jornal Folha da Manhã. Em 1955, baseados nessa experiência sai seu livro, Nosso mundo mental

Em 1954, Virgínia foi contratada pelo Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. 
Pouco depois, em 1955, iniciou uma temporada de estudos psicanalíticos em Londres. Além dos cursos na Tavistock Clinic e da formação na British Society, Virgínia tem contato e estuda com os analistas mais significativos da época: Melanie Klein, Ernest Jones, Winnicott, Bion e Anna Freud entre outros. Mesmo durante o seu período londrino, não diminui a sua disposição de divulgar a psicanálise: transmite para o Brasil, pela BBC, algumas palestras. Permanece estudando na Inglaterra até o final de 1959 quando retorna ao Brasil. Aqui retoma sua atividade clínica iniciada em 1944.


O espírito pioneiro se manifesta novamente após dez anos de atividade em São Paulo. Virgínia embarca no projeto de Brasília e passa a dividir-se por mais de 20 anos entre as duas cidades, trabalhando em São Paulo e, paralelamente, lecionando na Universidade Nacional de Brasília onde, com outros colegas paulistas, constitui a sede de Brasília do Instituto de Psicanálise da SBPSB, que irá gerar mais tarde a Sociedade de Psicanálise de Brasília. 
Para de trabalhar em Brasília somente em 1993. 

Continuou seu trabalho clínico até o ano 2000. Morreu em 2003, pouco antes de completar 93 anos de idade.

Virginia disse em entrevistas que deu que se aproximou, primeiro da sociologia e depois da psicanálise, para compreender sua própria dor, fruto do preconceito que sofreu desde menina em função de sua origem e de sua cor.

2 comentários

  1. Olá Cristina, muito interessante essa série de mulheres marcantes, adorei conhecer mais sobre a vida de Virgínia Bicudo, realmente uma figura muito importante em nossa área.
    Abraço

  2. Sabe, Cristiane, tem sido um prazer fazer essa série e ao mesmo tempo uma honra para mim, resgatar ou mesmo conhecer mulheres tão importantes e que sumiram do conhecimento atual. Acho um resgate importante para nós mulheres, pois existem companheiras inspiradoras no caminho de construirmos uma nova feminilidade consciente, como diz a Mario Woodman e que podem nos ajudar com suas histórias a nossa jornada. Abraço Cris

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