O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

MULHERES MARCANTES: Hildegard von Bingen (1098 – 1179)

Hildegard von Bingen foi uma monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga, escritora alemã e mestra do Mosteiro de Rupertsberg em Bingen , na Alemanha.
Personalidade muito citada mas de fato pouco conhecida pelo grande público moderno, rompendo as barreiras dos preconceitos contra as mulheres que existiam em seu tempo, se tornou respeitada como uma autoridade em assuntos teológicos, louvada por seus contemporâneos em altos termos. Hoje é considerada uma das figuras mais singulares e importantes do século XII europeu, e suas conquistas têm poucos paralelos mesmo entre os homens mais ilustres e eruditos de sua geração.

Seus vários e extensos escritos mostram que ela possuía uma concepção mística e integrada do universo, ainda que essa concepção não excluísse o realismo e encontrasse no mundo muitos problemas. A solução para eles, de acordo com suas ideias, devia advir de uma união cooperativa e harmoniosa entre corpo e espírito, entre natureza, vontade humana e graça divina. Para ela o universo era a resposta para as dúvidas da humanidade, e a humanidade era a resposta para o enigma do universo. Mas, como ela escreveu, se a humanidade não fizesse a pergunta, o Espírito Santo não poderia respondê-la. O misticismo de Hildegarda combinava percepções sensoriais de várias espécies com um conteúdo alegórico-teológico intenso e profundo. Suas visões lhe surgiam em plena consciência, vendo-as através de seus sentidos espirituais enquanto que permanecia de posse de seus sentidos corporais, mas também eram-lhe causa de sofrimento ou exaustão físicos, muito agravados quando ela se recusava ou tardava a colocá-las por escrito, o que ela dizia ser uma punição divina por sua falta de fé e pouca obediência.

Além de mística, teóloga e pregadora, foi poetisa e compositora talentosa, deixando obra de vulto e original. Também fez muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda vários temas ligados à medicina e ofereceu métodos de tratamento para várias doenças.

Pintura representando Hildegard
escrevendo sob inspiração divina.

Outros aspectos de sua carreira e obra que têm sido de muito interesse para a atualidade são, em primeiro lugar, o fato de ela ter sido uma mulher respeitada numa sociedade patriarcal misógina que via as mulheres com olhos cheios de preconceito, correspondendo-se em pé de igualdade com papas, altos prelados e autoridades profanas. Em segundo, o grande papel que atribuía ao feminino na ordem do universo. Imagens femininas alegóricas investidas de grande poder abundam em seus textos, como a Fé, a Igreja e a Caridade, mas em especial a figura da Sabedoria e é significativo que ela se recusasse atribuir a culpa do pecado original a Eva. O próprio Deus, em seu tempo invariavelmente considerado uma entidade masculina, é descrito por ela muitas vezes como uma mãe amamentando a Criação e velando por sua progênie. Mas é preciso assinalar que essa ênfase no feminino não a levou a uma negação do masculino, nem a um confronto direto com as definições da ortodoxia dogmática do Cristianismo – o que ela parece ter buscado foi uma harmonização entre os opostos. Em terceiro lugar vem sua abordagem franca da sexualidade humana, mostrando-os como funções essenciais do corpo e necessárias para o bem-estar humano no estágio evolutivo em que se encontra. Finalmente, traçando um painel histórico dos papéis sociais tradicionalmente atribuídos às mulheres – a maternidade ou a vida religiosa – não via nenhum deles como de todo satisfatórios.

Famosa em vida, sua contribuição como escritora, teóloga e compositora musical foi esquecida pouco depois de sua morte. Durante o Renascimento sua figura foi em parte redescoberta, mas autenticidade de seus escritos foi posta em dúvida, sendo considerados um produto de um monge escrevendo sob pseudônimo, além de ser acusada de protestantismo pela sua condenação dos abusos do clero.

Relicário de Santa Hildegard na
igreja de Bigen.

A partir da segunda metade do século XX o interesse pela sua figura histórica e seus escritos renasceu, e atualmente sua produção é objeto de análises particularizadas por um bom número de acadêmicos da Europa e Estados Unidos. Uma de suas pesquisadora diz dela: “sua contribuição foi tão excepcional em se tratando de uma mulher de sua época, que os pesquisadores modernos, com todo seu aparato teórico e instrumental, ainda consideram difícil analisá-la com suficiente objetividade e avaliar sua real importância”.

Em 1584, sem cerimônia oficial, seu nome foi incluído no Martirológio Romano como santa. Em 2012 o papa Bento XVI reafirmou oficialmente sua santidade e a proclamou Doutora da Igreja.

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