O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Sobre Príncipes e Princesas

Texto de CASSIA SIMONE

Artigo escrito por Cássia Simone, psicoterapeuta junguiana, querida amiga e seguidora desse blog.

Quando ouvimos ” Era uma vez” somos transportados a um mundo quase de sonhos onde tudo pode acontecer. Muitas histórias tratam das aventuras de uma jovem mulher, filha de reis ou não, que aparece como a protagonista dos chamados “contos de fada”. Tais contos têm sido tratados como tolos, “água com açúcar” com finais felizes, onde quase sempre o príncipe salva uma moça desvalida e tola. Nesta visão empobrecida a razão última da princesa é encontrar um príncipe para salvá-la e casar-se com ela.

Se afinarmos nossos ouvidos, porém, perceberemos que a heroína parte de uma condição de relativo conforto para enfrentar um longo caminho de provas e dificuldades, atravessando situações de desafios e riscos antes sequer imaginados. Poderíamos dizer que a Princesa surge como a imagem feminina do herói.

Apesar de conservar na estrutura semelhanças com a jornada já descrita por Joseph Campbell algumas particularidades se mostram presentes. O ponto de partida será sempre uma situação de extrema vulnerabilidade, sendo este um traço marcante da protagonista. No decorrer da jornada ela será submetida a toda sorte de provas onde serão exigidas habilidades que lhe são próprias ou que serão adquiridas no decorrer do caminho. Tais habilidades quase sempre são ressaltadas ou aprendidas através das relações com a Natureza ou com outras pessoas. O caminho da Princesa sempre é um caminho de descobertas nas relações.
Contrariando o senso comum as princesas geralmente são lançadas numa jornada solitária em busca de sua própria identidade ou liberdade. São fortes de apesar de todos os temores enfrentam com bravura suas tarefas. Geralmente demonstram inteligência e astúcia para resolver problemas e conflitos. A busca nunca é apenas encontrar um príncipe, que quando aparece, é conseqüência e não causa da aventura. A heroína está em busca de sua identidade, enfim, de conhecer mais profundamente sua própria Alma.
Podemos notar isto na tão conhecida história da Bela Adormecida, tal como contada pelos Irmãos Grimm, a Princesa cai num sono profundo por uma maldição e todo o Reino adormece junto. Serão necessários 100 anos, um longo processo para que a protagonista venha a despertar. Ela dorme o sono da transformação. Cumprido o tempo determinado haverá de acordar. O príncipe consegue chegar até a torre onde dorme a bela apenas quando chegou o momento exato em que ela abriria seus olhos para o mundo, transformada pelo longo período de sonhos que atravessou. Mudanças aconteceram dentro dela que abrem para a possibilidade de uma vida feliz em seu reino e com seu príncipe.
As histórias de princesas, portanto, podem ser compreendidas como símbolo do processo de transformação da mulher.Os contos tradicionais, como diz Clarissa Pínkola Estés, nos oferecem pistas de como podemos seguir nosso caminho. O caminho da Alma. Por isso nos comovemos e deleitamos com as peripécias das princesas. Podemos tirar delas lições úteis para nossa vida profunda.

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