O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

A menina dos impossíveis: Ana Figueiredo

Fiz esses contos com intenção de “traduzir” para a linguagem mitológica alguns aspectos da vida real da mulher entrevistada no nosso livro O feminino e o sagrado: mulheres na jornada do herói.
Então, para esclarecer os que ainda não leram o livro e relembrar a quem leu, antes do conto há um pouco da biografia da pessoa a quem se refere.


Ana nos contou que teve uma infância inventiva. Criava personagens para si mesma, e brincava que estava em algum dos belos lugares retratados nas fotos que colecionava, em vez de estar ali, no porão de sua casa, sozinha.
Uma das coisas legais da historia da Ana é que sua vida de adulta continuou inventiva e cheia de episódios quase impossíveis. Formada em ciências sociais, ela é professora de dança e improvisação, dá aulas sobre mito e cinema, trabalha com rituais, viaja pelos lugares retratados nas fotos e ainda habita porões mágicos, quer fiquem numa ilha (onde morou) ou num apartamento com vista para as arvores dos Jardins (onde mora).

Era uma vez uma menina que morava em um estranho porão, onde passava longas horas sonhando acordada.
Certo dia, ela sonhou que a estrela Vésper, fazendo uma visita rápida como um clarão que brilha forte e logo some, havia lhe deixado um presente.
A menina despertou com esse brilho, piscou, olhou em volta e viu um pequeno baú de madeira. Dentro do baú tinha um monte de fotografias dos lugares mais lindos do mundo.
Então, ela começou a brincar com essas imagens.
Recortou as fotos de uma ilha, inventou historias sobre ela – e, de repente, a ilha apareceu, inteirinha, dentro do porão. Não se sabe como, estava tudo ali: a praia, os hippies, e o próprio mar sem fim, cor de turquesa.
A menina ficou nesta ilha até se cansar. Daí voltou, e foi contar para os vizinhos o que tinha acontecido.
– Impossível, eles falaram. – Uma ilha não cabe num porão!
Ela tornou a mexer nas fotos do baú. Tirou as imagens de um anfiteatro grego, que ali se materializou e onde ela aprendeu a dançar. Depois, de uma igreja cheia de sublimes Madonas, depois de bosques onde ainda se pratica antigos rituais, e de muitos outros lugares encantadores.
Quando enjoou de viajar, a menina descobriu que havia outras coisas dentro do baú. Para começar, achou uma tiara de diamantes.
– Impossível, disseram os vizinhos. – Para ter uma tiara de diamantes você precisa ir comprar no shopping – e custa caro demais!
Com a tiara, ela se transformou na Princesa do Reino do Porão Mágico. Achando outras coisas, ela foi cientista social, dançarina, colecionadora de rendas e frufrus, musa, pesquisadora de mitos e cinema, dirigente de rituais.
– Impossível alguém ser tudo isso! disseram os vizinhos.
Assim, ela desistiu de contar essas coisas para os vizinhos.
Como sentiu-se um pouco sozinha, criou alguns príncipes, uns velhos sábios, e um grupo de saltimbancos que hoje a ajudam a inventar mais coisas, dançam e fazem malabarismos em qualquer corda bamba que a menina estique.
Claro que, como no porão cabe tudo que existe ou que se invente, acaba aparecendo um ou outro monstro.
Então, a menina dança com eles também, e inventa finais felizes até para os mais tenebrosos, por impossível que pareça.

Comentário da Ana sobre seu conto:

Li o conto como se o deparasse pela primeira vez; falava de uma menina que poderia ser eu mesma, afinal já estou tão mais velha que essa menina, e no entanto ela sou eu mesma.
Esta semana assisti um filme atual com Vanessa Redgrave; e lá está ela com seus tantos anos de vida, velha, e também lá estão todos seus gestos e neles a clareza de sua paixão, e também seu entusiasmo pela vida.
E o amor que ela agarrou e agarra com todos seus dedos e o aperta bem junto a si. Somos camadas e em cada uma delas, cada uma transparente, tudo está ali, presente.


Ana Figueiredo

3 comentários

  1. KÁTIA BUENO disse:

    Que lindo conto e que belíssima ilustração da menina dançarina com um "baú-mundo" nas mãos!
    E linkando esta bela estória com a teoria junguiana, o nosso "baú-tesouro", o nosso grande arcabouço de sabedoria e criatividade está mesmo em grande parte no porão – no nosso inconsciente. Quantas preciosidades devem existem por lá… cabe a nós ter coragem sufiente pra ir lá e resgatar tudo isso!
    Adorei!
    Um abraço, com carinho.

  2. evangelina disse:

    Estes contos me tocam profundamente…Penso que Campbell os amaria e entenderia melhor do que ninguém a maravilhosa possibilidade de transformar em mito uma trajetória humana elevando-a ao eterno trancendente. Parabéns, meninas queridas!!!

  3. Comprei este livro há alguns meses e ontem enquanto eu fazia não sei o que proximo a estante eu parei de frente a este livro e pensei: está na hora de ler… EStas mulheres vão me ajudar a completar esta minha jornada atual… Nem preciso dizer que houve uma identificação grande com as histórias. E, conheci Campbell quando não sabia quem era Campbell, simplesmente comprei um livro dele e quando comecei a ler eu pensei: Este cara andou lendo meus pensamentos… Dei então meu primeiro passo fora da depressão adentrando num universo que eu não tinha noção na época que todo meu…. e de todos ao mesmo tempo…

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